Reabertura do Forte da Graça: A primeira linha de defesa contra Espanha

por Annamaria Gaál

O Forte da Graça, situado na cidade fronteiriça de Elvas, reabriu ao público no dia 27 de novembro, depois de 11 meses de massivas obras de restauração. A iniciativa pretende legitimar a importância histórica e militar da cidade, considerada “a maior fortaleza abaluartada terrestre do mundo”, pelo qual foi designada Património Mundial pela UNESCO, desde 2012.

Fazendo fronteira com Espanha, e na vizinhança de Badajoz, Campo Maior e Olivença, a importância de Elvas na defesa militar do território português, devido a sua localização estratégica, é patente na própria construção e arquitetura da cidade, que acompanha a história turbulenta da região onde se insere.

Apresentando ainda alguns vestígios da ocupação islâmica, Elvas é cercada por quatro muralhas – construídas durante a sua expansão, a última das quais fernandina, do séc. XIV – e protegida por dois fortes, da Graça e de Santa Luzia, e quatro fortins, de São Mamede, São Pedro, São Domingos e São Francisco.

Construida pelo Coronel Guillaume Louis Antoine de Valleré nos meados do séc. XVIII, ao comando do inglês Conde de Lippe, o Forte da Graça ergue-se no topo da montanha que faz de barreira natural da cidade a Norte, e substituiu uma pequena igreja gótica – Ermida de Nossa Senhora da Graça – mandada construir pelos bisavôs do navegador Vasco de Gama, quatro séculos antes.

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Passada a ponte levadiça, a entrada principal para a fortificação quadrangular – cuja geometria respeita o segundo Sistema Francês de Pagan – faz-se pela Porta do Dragão, que no seu topo projeta duas peças de artilharia esculpidas, guardadas pelo feroz animal, simbolizando “a incapacidade de ser vencido” das tropas portuguesas. Desta porta até  à seguinte – que dá acesso ao interior do reduto central – a passagem é coberta e amplamente armadilhada.

Segundo o historiador da cidade Rui Jesuíno, “quem ousasse entrar pela Porta do Dragão, com a intenção de invadir o forte, dificilmente chegava até à porta [interior]”. Logo à entrada, os impostores tinham de escapar ao jato de água a ferver que era atirado por um buraco propositadamente feito no meio da cúpula, as lanças que disparavam das perfurações ao longo da arcada que leva a uma escadaria larga, culminando com o canhão escondido num grande orifício no teto, e que lançava pedregulhos a quem conseguisse chegar até esse local.

É com atenção a detalhes como estes que o Forte da Graça foi cuidadosamente restaurado, com a recuperação mais fiel possível das cores aos materiais de construção utilizados. Nuno Mocinha, presidente da Câmara de Elvas, garante que as obras, que passam pela “recuperação de todas as estruturas, nomeadamente a cisterna, a prisão, as galerias de tiro e a capela, onde foram descobertos frescos do século XIX, também eles alvo de intervenção”, respeitam ao máximo a autenticidade do forte.

“Esta joia de arquitetura da engenharia militar, levou 30 anos a construir, empregando 6.000 homens e 4.000 animais [e] o seu custo foi de 767.199$039 reis”, pode-se ler num dos murais recentemente restaurados. Mais de dois séculos depois, as obras para requalificar a imponente edificação tiveram um custo inicial de 6,1 milhões de euros, financiada em parte através de fundos comunitários do QREN e o restante pela própria Câmara de Elvas.

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O acesso ao ponto mais alto do forte, a Casa do Governador, é feito por umas escadarias estreitas e circulares, que, segundo Rui Jesuíno, mantêm a madeira original e são por isso bastante frágeis. Chegando em cima, o terraço oferece uma deslumbrante vista panorâmica da cidade, e particularmente dos quatro cantos do forte, onde se veêm agrupadas pequenas casas rosadas. Segundo o historiador, os quartéis teriam servido como albergue durante os períodos de paz, mas também como guarnição, onde durante os períodos de guerra os soldados escondiam os canhões para enganar os inimigos nos seus ataques.

Pensando nas dificuldades de alguns dos visitantes de aceder aos pisos superiores e ao respetivo terraço, como também querendo enquadrar a obra na atualidade, o historiador também chama a atenção para a incorporação de tecnologias em diversos pontos estratégicos. Como exemplo disso, além da rede wifi que cobre toda a área do forte, cada placa informativa que acompanha os espaços permite a leitura dum código QR – um código de barras bidimensional que pode ser facilmente escaneado usando um telemóvel com câmara – que levará o visitante a uma página online interativa com informações adicionais.

Para quem não conseguir acompanhar o roteiro na íntegra ou quiser levar uma lembrança original da sua visita, o Rui Jesuíno também promete implementar um sistema – que também funcionará com base num código QR  – que possibilitará tirar fotografias ao lado de personalidades imponentes, como o próprio Conte Lippe ou Sinel de Cordes, que esteve preso no forte depois da revolta militar monárquica de 1925.

Tudo isso dependerá do retorno dos investimentos feitos até ao momento. Para já, a partir de 27 de novembro, o Forte da Graça está aberto ao público todos os dias entre as 10h e as 12h e entre as 14h e as 17h, com preços que variam entre os cinco euros (entrada normal) e os 15 euros (visita guiada com acesso à cisterna).

Nuno Mocinha considera que esta é “uma obra de elevada importância para a comunidade elvense e para todo o país”, e é neste sentido que no futuro pretende desenvolver parcerias com os seus vizinhos Campo Maior e Badajoz, para juntos promover o turismo militar que acredita ter um grande potencial.

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Comments
One Response to “Reabertura do Forte da Graça: A primeira linha de defesa contra Espanha”
  1. Floare Gaal disse:

    Destul de bine scris si documentat.Mi-a placut.

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