
Caderno História&Cultura
O MAGO DA CONTRADIÇÃO
José Saramago (1922-2010) era um comunista convicto, e portanto acreditava na possibilidade de um futuro brilhante para a espécie humana; ao mesmo tempo, era totalmente cético, ao abordar a vida dos seres individuais. Toda a sua obra foi marcada por essa tensão
Renato Mendes, De Lisboa
O escritor português José Saramago, Nobel da Literatura em 1998, comunista e intelectual radical morreu em 18 de junho, em sua casa em Tias de Fajardo, na ilha vulcânica de Lançarote (Arquipélago das Canárias). Cidadão do mundo entregue a causas e debates, sua morte repercutiu na imprensa em todos os continentes, mas foi na Península Ibérica mais comentada e sentida. Iberista, definia-se como um comunista libertário e incomodou muitos. Seu discurso foi sempre marcado por uma racionalidade aguda e ceticismo em alto grau. A convicção que alimentava em transformar o mundo afirmava estar inscrita em seu código genético, da qual não se conseguia libertar, mesmo que quisesse.
Saramago sempre assumiu a ideologia comunista. Levantado do Chão, livro de 1980, foi um elogio aos trabalhadores antifascistas do Alentejo, enquanto A Caverna, escrito 20 anos depois, faz alusão a caverna de Platão e aos shoppings criticando o consumismo. Sobre a crise, em entrevista de 2008 para Mundo, quando o escritor celebrava os 10 anos do Nobel disse: “De uma coisa podemos estar certos, o capitalismo não vai parir o socialismo. No fundo é como no Gattopardo de Lampedusa, e essa frase já foi mil vezes citada, mas cada vez vamos sabendo melhor o significado dela, ‘é preciso mudar alguma coisa para que tudo continue na mesma’ e isso é o sonho de todas as grandes empresas e de todos os bancos.”
Transgressor, amigo de Álvaro Cunhal – líder histórico do Partido Comunista Português (PCP), insurgia-se contra qualquer partido de esquerda ou força progressista, que atentasse contra os direitos humanos. Foi assim com Cuba, em 2003: “Até aqui cheguei. De agora em diante, Cuba seguirá o seu caminho, eu fico.” Esta foi sua decisão frente à execução autorizada por Fidel Castro, de três dos autores do desvio de uma balsa. Outra questão de caráter humanitário fez com que em 1999, o escritor recusasse o título honoris causa, da Universidade Federal do Pará (UFPA), em protesto contra a forma como foi conduzido o julgamento do massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996, quando 19 camponeses foram assassinados por policiais.
Teve sua ideologia comunista amplificada quando assumiu a direção do lisboeta Diário de Notícias (DN), onde escrevia artigos de opinião com posições políticas extremadas. Mas a polêmica maior, nos poucos meses em que esteve à frente do jornal, aconteceu quando demitiu 24 jornalistas contrários ao movimento comunista, no “verão quente” de 1975. Uma contradição. É preciso lembrar que à época, Portugal passava pelo Processo Revolucionário em Curso (PREC), um momento em que a esquerda e esquerda radical ascenderam às esferas de poder da sociedade, que vivia a ressaca do 25 de Abril (Revolução dos Cravos, 1974).
A cronologia das polêmicas do escritor é extensa. As posições ideológicas defendidas em entrevistas bombásticas, como aquela que ventilava a integração de Portugal pela Espanha (publicadas em Mundo, setembro de 2007), chocavam a sociedade invariavelmente, criando dinâmica no pensamento social. Jangada de Pedra, uma ficção de 1986, em que a Península Ibérica flutua pelo oceano Atlântico à deriva, por não ter identificação com o continente europeu, foi escrita em um momento de virada para Portugal. O país integrava-se a Comunidade Económica Europeia (CEE) e Saramago indicava o caminho oposto, através do livro.
A razão converte o ceticismo em retórica brilhante, quando contesta a existência de Deus, no lançamento do polêmico Caim, em 2009: “Os meus valores e tudo isso estão empapados de cristianismo. Às vezes dizem-me: ‘Por que é que você, que é ateu, se preocupa tanto com Deus, ou se ocupa dele tantas vezes?’ Porque Deus está aqui. Onde está Deus? Na cabeça de cada um de nós. Fora daí não está Deus. (…) O absurdo neste caso é que de alguma maneira o ser humano inventou Deus e depois escravizou-se a ele. E isso é que eu ponho em questão. Eu só penso em Deus para o criticar. Para demonstrar o absurdo de uma crença que não resolve nenhum dos nossos problemas e que promete não se sabe para quando a felicidade eterna ou o castigo eterno.”
Na visão de Adelino Gomes, jornalista português e antigo militante contra a ditadura, as contradições ajudam a entender quem foi Saramago: “Filho de camponeses pobres, brilhou nos salões da academia sueca. Comunista assumido, apoiou por várias vezes candidaturas do Partido Socialista (PS) – o arqui-inimigo do PCP. Ateu, bebeu inspiração constante nas páginas do Antigo Testamento e escreveu páginas divinais sobre a humanidade de Cristo, encontradas em narrações do Novo Testamento. Racional, colocou o melhor da sua capacidade literária na criação de heróis impossíveis e deixou-se envolver, aos 63 anos, com a sevilhana Pilar del Rio, numa história de paixão.”
O paradoxo filosófico e ideológico que emerge das duas facetas do escritor, a de comunista e a de cético, complementam-se por oposição criando um círculo virtuoso, que o escritor usava como fonte criativa. Saramago declarou que o seu retrato fiel foi escrito pelo comunista italiano Antonio Gramsci: “Pessimista pela razão, otimista pela vontade”. O que se retém do ceticismo de Saramago não anula o seu lado terno e humano. Saramago acreditava que “a finitude é o destino de tudo. O Sol, um dia, apaga-se” e resumia: “Tu estavas e agora já não estás. Isso é a morte”.
José Saramago escreveu 46 livros, traduzidos em 42 línguas de 53 países. Vendeu algo como 10 milhões de livros, a maior parte em Portugal, Brasil, Espanha e Estados Unidos. Sua herança literária reflete a integração portuguesa na Europa, faz uma análise crítica e irônica do cristianismo e discute temas com alcance universal. A escrita sem pontuação e sem maiúsculas, a falta de regularidade nos discursos diretos, o imaginário dominado pelo realismo fantástico, a ironia, os anacronismos, a lucidez e o humor são marcas de sua literatura.
O escritor deixou 30 páginas inéditas, de um livro que teria como tema central a guerra. A Fundação José Saramago, sob responsabilidade de Pilar del Rio, ganhou uma nova sede, o prédio histórico Casa do Bicos, em Lisboa. Uma oliveira centenária será transplantada da aldeia de Azinhaga para a frente da Fundação, onde Saramago repousará sob sua sombra. Haverá um banco de jardim, para que seus amigos leiam trechos de sua obra.
Obras essenciais
Levantado do Chão (1980); Memorial do Convento (1982); O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984); História do Cerco de Lisboa (1989); O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991); Ensaio sobre a Cegueira (1995); As Intermitências da Morte (2005); Poesia Completa (2005); A Viagem do Elefante (2008); Caim (2009).
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