
Caderno História&Cultura
EUROPA TEME EXPANSÃO ISLÂMICA
Em 20 anos a África será “islamizada”, como aconteceu com os povos da Ásia central, afirma o sociólogo das religiões Moisés Espírito Santo. É o catolicismo – que não se confunde com o cristianismo – que demonstrou, historicamente, a sua intolerância
Renato Mendes, de Lisboa
A Europa não pode vacilar, quando se trata da defesa de sua identidade própria, cristã e ocidental. Hoje, a identidade europeia é ameaçada pelo Islã, tanto pelas turbulências políticas que ganham aspecto cada vez mais explosivos e abrangentes no Oriente Médio e Ásia central (região estratégica, onde estão situadas as mais vastas reservas de petróleo do planeta), quanto pelas agitações e tensões religiosas e culturais dentro dos próprios países europeus, potencializadas pela ameaça de terrorismo.
A percepção exposta acima, com algumas diferenças de grau de radicalismo, reflete, na média, os pontos de vista da Igreja Católica e dos setores mais conservadores da direita européia, em geral identificados, no âmbito político, com a Democracia Cristã. É a lógica da suposta “guerra de civilizações” que está em curso. Mas uma breve análise da história da formação da cultura europeia demonstra que esse conceito é impraticável e irreal, pois não há como isolar nenhuma “civilização” pura. O próprio Islã ofereceu contribuições decisivas para a construção de uma “identidade europeia”, como mostra claramente a história da Península Ibérica.
A conquista da Península Ibérica foi iniciada no séc. VIII, por berberes (povos que viviam no norte da África) convertidos ao Islã por Tarique. À época, os povos ibéricos – majoritariamente formado por visigodos, de maioria cristã e judaica – não ofereceram grande resistência. Os berberes, em contrapartida, exerceram o seu poder através da cobrança de impostos (a jazia), mas nunca pela imposição religiosa, obedecendo ao princípio da liberdade de culto exposto no Corão. Foi o processo que permitiu a construção e o magnífico desenvolvimento do Califado de Córdoba e da Andaluzia.
Apesar disso, há uma grande possibilidade de choque entre as culturas islâmica e ocidental, segundo afirma o professor português sociólogo das religiões Moisés Espírito Santo, entrevistado em Lisboa. Isso não se deve a supostos antagonismos religiosos ou doutrinários, mas ao acelerado processo de massificação do islamismo no mundo. “Tchetchênia, Cazaquistão, Uzbequistão e Afeganistão eram repúblicas laicas, que hoje são islâmicas por maioria. Hoje, todo o Oriente Médio até a China está em conquista permanente pelo Islã”.
Em 20 anos o continente africano será islamizado, afirma o professor, com exceção dos estados fortemente centralizados e dotados de vitalidade institucional. Para ele, a maioria dos países africanos vive um estado social de anomia, que caracteriza os povos que sofrem a perda de identidade cultural. A falta de coesão social, a difusão ideológica e a ausência de uma proposta de salvação religiosa fazem com que as características simples do islamismo e a sua forte coerência teológica sejam altamente sedutoras para os povos do continente africano.
ENTREVISTA COM MOISÉS ESPÍRITO SANTO, PROFESSOR CATEDRÁTICO E SOCIÓLOGO DAS RELIGIÕES
Mundo – Quais são as matrizes culturais e religiosas da Europa?
Moisés Espírito Santo – A matrizes são muito antigas e tem a ver com o Império Romano, com a religião e direito romano, que é um direito com características modernas, centralizado e organizado. O Império Romano era laico, permitia que todas as religiões existissem desde que mantivessem a ordem pública. Essas tradições foram respeitadas pelo cristianismo primitivo, que era tolerante e livre, mas não pelo catolicismo romano. A matriz religiosa europeia é de laicidade.
Mundo – Pode ser feita uma analogia entre passado e presente religioso na Península Ibérica?
MES – Foi na Península Ibérica onde a religião católica mais se assemelhou à prática do antigo Império Romano. Até Constantino, no séc. IV, existia a religião oficial do império, mas também tolerância e liberdade para os povos. Faz lembrar um pouco o atual Estado inglês que é oficialmente protestante, mas tem como parceiros todas as outras religiões, como na Suécia e na Noruega. Os países nórdicos não são laicos no sentido latino. O estado tem uma matriz religiosa, que é a protestante, mas as religiões várias são parceiras com iguais direitos da religião do estado.
Mundo – O que aconteceu na Península Ibérica após a implantação do catolicismo?
MES – O catolicismo não deriva de Cristo, mas de Constantino. O catolicismo nasceu de um ato político. O imperador Teodósio decretou, no século IV, que toda a Europa seria católico-romana, e previa pena de morte para os dissidentes. Todos os bens das antigas religiões passaram por decreto para a Igreja Cristã Romana, como se chama. A religião do imperador se sobrepôs a liberdade religiosa dos cidadãos.
Mundo – Houve conflito com o Islã na Península Ibérica?
MES – Quando o Islã conquista a Península Ibérica em 711, através dos berberes, fazem isso com facilidade. Não houve guerra. Não havia estado, havia vários reinos e todos eles incapazes de impor a ordem. Naquele tempo coexistiam o cristianismo popular, anárquico, com seus cultos locais, além do catolicismo romano e do judaísmo.
Mundo – O judaísmo também contribui com a cultura e a religião na península.
MES – No século IV, as comunidades judaicas eram as mais importantes do ponto de vista de uma doutrina monoteísta. Eles chegaram na Península Ibérica muito antes do nascimento de Cristo. Toda uma cultura médio oriental se instalou por aqui, com os fenícios, os púnicos etc. Até o séc. XIV, metade da população portuguesa era judaica. Portugal e Espanha foram dos povos mais judaizantes. Era um judaísmo que vinha do norte de África.
Mundo – Havia liberdade religiosa na Península Ibérica?
MES – Aqui, entre os séculos VIII e XII, sob ocupação islâmica, funcionou a plena liberdade religiosa, coisa que não exista em nenhuma outra parte da Europa. Alguns dos aspectos da diversidade religiosa, que se praticam nos dias de hoje, foram afirmados nessa época.