Jornal ABC – 25/10

El libro digital del desasosiego

Por Belén Rodrigo, correspondente

Lejos estaba Fernando Pessoa de imaginar que sus libros, apuntes y comentarios estarían algún día al alacance de todos. Su biblioteca particular es a partir de ahora universal gracias a la digitalización de 1140 volúmenes. En http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt (un portal bilingüe en portugués e inglés) se encuentra accesible el legado de una de las mayores figuras de la literatura portuguesa. Un total de 337.187 páginas digitalizadas y 2089 ficheros que se pueden descargar de forma gratuita. Pessoa consigue así mantener vivo el diálogo que tanto fomentó con autores de todo el mundo.

“Podemos apropiarnos de los libros de Fernando Pessoa”, cuenta a ABC Jerónimo Pizarro, investigador colombiano responsable de este proyecto inédito. En las obras que Pessoa consultaba día a día descubrimos páginas, poemas, textos y anotaciones del poeta que permiten entender el diálogo que mantenía con los libros y realizar un viaje temporal por su vida y su formación como escritor. “Pessoa se pelea con los libros”, revela Pizarro, “ mantiene verdaderas conversaciones con los autores”. Cuenta además que en las páginas de estos libros descubrimos “mensajes llenos de humor, nos revela su faceta más irónica”. Pizarro lleva diez años en Lisboa, donde da clases en la universidad y a pesar de conocer bien la obra del autor luso antes de instalarse en Portugal “fue aquí donde supuso para mí una revelación todo su expolio”, afirma, “esta biblioteca es tan importante como el archivo nacional”.

Están catalogados 1317 libros de los cuales 1140 pertenecen a la Casa Fernando Pessoa y el resto a los herederos. “No tenemos la totalidad de las obras digitalizadas por cuestiones de derechos de autor ya que hay familias que no nos han autorizado a hacerlo pero espero que cambien de opinión”, explica Jerónimo Pizarrro. Resalta el hecho de que la mitad de los libros estén escritos en lengua inglesa y recuerda que “el diálogo de Pessoa es casi siempre con extranjeros”.

Recuperar las obras

Pizarro propuso en el 2008 este proyecto a la directora de la Casa Fernanado Pessoa, Inés Pedrosa y se ha llevado a cabo gracias al patrocinio de la Fundación Vodafone Portugal, con un presupuesto de 75 mil euros. “Una cantidad semejante a lo que cuesta restaurar los libros”. De toda la biblioteca “hay 400 volúmenes en muy mal estado y haría falta recuperarlos”. Cree además que un segundo paso de esta biblioteca sería “digitalizar las obras de Fernando Pessoa”. En vida apenas publicó nada y por ello faltan sus obras. “Sería bonito continuar de esta forma con el proyecto”. De momento ha visto cumplido su sueños, “convertir a Pessoa todavía más universal y tener su biblioteca abierta al mundo entero”.

Inés Pedrosa entiende que “una biblioteca de esta importancia debía ser patrimonio de la humanidad y no únicamente de aquellos que pueden venir a esta casa donde Pessoa vivió los últimos quince años de su vida”. Se trata de una biblioteca “abierta al infinito de la interpretación, bella y sorprendente como todo lo que Fernando Pessoa creó”. Tal y como el propio poeta portugués dijo, “!Sé plural como el universo!“.

Acceder a: http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/

Ir a Biblioteca Pessoal de Fernando Pessoa

Allí encotramos diferentes secciones para poder contemplar las dedicatorias, anotaciones, las firmas o los sellos de sus libros. Podemos buscar obras por el autor, título, fecha o clase. También se incluye un apartado para los estudios existentes sobre la biblioteca de Pessoa que espera que se enriquezca con nuevas aportaciones.

Link: http://www.abc.es/20101025/cultura/libro-digital-desasosiego-20101025.html

Revista Pessoa- 06/08

 

“Os portugueses acham que são donos da língua”. Germano Almeida, escritor cabo-verdiano

Por Jaír Rattner

Autor de O testamento do sr. Nepomuceno, o cabo-verdiano Germano Almeida percorre em seu novo livro, A morte do ouvidor (Caminho, 2010), um momento chave na história do país: quando, por ordem do Marquês de Pombal, a oligarquia cabo-verdiana foi decapitada no século XVIII, para afirmar o poder do reino e garantir o comércio com o território do Grão-Pará e Maranhão.

Com a estrutura de um diálogo, o livro conta em paralelo duas histórias diferentes. A morte do ouvidor e o processo que se seguiu, nas palavras de dois cabo-verdianos da atualidade: um emigrante que volta para escrever o livro e o outro que viveu sempre em Cabo Verde. Eles têm visões diferentes sobre a realidade local.

Advogado, com 55 anos, Germano Almeida começou a publicar em 1980, na revista cabo-verdiana Ponto & Vírgula. Seu primeiro romance – O testamento do sr. Nepomuceno –, o único publicado no Brasil, deu origem ao filme que ganhou o Festival de Gramado como melhor filme latino em 1997. As marcas da sua escrita são o humor e a ironia em relação aos costumes em Cabo Verde. De passagem por Portugal, Germano de Almeida falou à revista Pessoa.

Pessoa – O livro tem traços de romance histórico, de uma história em diálogo e até de literatura de viagens. Qual desses elementos é mais forte?
Germano Almeida
– Nunca dou opinião sobre meus livros. Acho que é uma narrativa. Pertence ao leitor classificar o livro, e ele classificá-lo-á como entender. Por exemplo, eu me lembro quando publiquei O testamento do sr. Nepomuceno, toda gente disse que é um romance. E apareceu um crítico que disse que não, que é uma noveleta. Ao escrever, a gente nunca define se vai escrever um romance, uma literatura de viagens ou o que for.

P – Como surgiu a história?
GA – Conheci esta história há muitos anos, em uma sentença dessa época, que me mandaram de Portugal. Foi um jornalista, meu amigo, que mandou para Cabo Verde, e tinha encontrado a sentença num alfarrabista. Li a história com interesse, passava-se na minha terrra, Santiago, mas não tinha mais elementos sobre aquilo. Depois, ao longo do tempo, foram surgindo mais elementos da história de Cabo Verde, que ajudaram a entender o que tinha acontecido nessa altura. Não tinha elementos suficientes para fazer um romance histórico. Tenho aqui um livro com episódios históricos. É como se fosse um romance de personagens da atualidade, que contam a história do antigamente, porque não me sentia balizado para escrever um romance histórico. 

P – O livro relata momento chave na história de Cabo Verde, que é o fim da autonomia. O que isso significou para o país?
GA – Consequências extremamente desastrosas. Até essa altura, pode-se dizer que Cabo Verde vivia num regime de quase autogestão. A metrópole tinha muito pouca influência em Cabo Verde, e dava muito pouca importância a Cabo Verde. Os cabo-verdianos viviam nos seus comércios com a África, algumas coisas vinham da metrópole, porque Cabo Verde sempre esteve muito ligado a Portugal continental. Com o Marquês de Pombal, criou-se a Companhia do Grão-Pará e Maranhão, destinada a servir o Brasil. E Cabo Verde foi uma espécie de entreposto da companhia. Nessa altura tudo foi nacionalizado a favor da companhia. A oligarquia cabo-verdiana não gostou, praticaram algumas barbaridades, entre elas terem matado o ouvidor de que trata o livro. E foram decapitados. A partir daí, durante todo o tempo do marquês, e nos reinados seguintes, Cabo Verde viveu em regime decolônia. Acho que nunca mais saiu disso, até a independência.

P – No livro, há um conflito latente. Entre os emigrantes e os que ficaram em Cabo Verde. O que representa isso na sociedade cabo-verdiana atual?
GA – Muito menos do que representou antigamente. Pois antigamente tínhamos o que chamamos de “terra longe”. O emigrante ia e voltava anos depois. O emigrante sai de Cabo Verde e deixa uma realidade. Quando volta quer encontrar a mesma realidade, o que não acontece, porque nós evoluímos. O emigrante dificilmente aceita isso, e continua a ver-nos com os mesmos olhos, com alguma superioridade. E nós também não aceitamos isso. Agora está mais fácil, na medida em que o emigrante tem maior facilidade de comunicação com Cabo Verde. Também é verdade que os emigrantes, quando chegam em Cabo Verde, chegam com hábitos diferentes, com costumes diferentes, que significam de algum modo uma agressão ao nosso modo de vida, assim como acontece com os turistas. O nosso emigrante não é muito diferente do turista.

P – Acredita que existe uma literatura de língua portuguesa, com traços comuns nos oito países?
GA – Há uma literatura feita em língua portuguesa. Agora eu não acredito muito na chamada literatura lusófona. Há literatura de Cabo Verde, de Angola, de Portugal, do Brasil. Nós usamos a língua portuguesa para traduzir nossa cultura específica. Não podemos dizer que há uma literatura lusófona, como se nós escrevêssemos da mesma maneira e sobre a mesma realidade.

P – Hoje, em Cabo Verde, há muita influência da literatura brasileira?
GA
– Já existiu muito mais. Neste momento, o contato com o Brasil, na literatura pelo menos, é feito através de Portugal. No comércio é feito diretamente, mas na cultura depende de Portugal. Infelizmente, o corpo diplomático brasileiro não é tão agressivo como poderia ser, e limita-se a atividades nas cidades da Praia e de São Vicente. A influência da literatura brasileira foi grande em Cabo Verde, sobretudo no tempo da revista Claridade, que surgiu em Cabo Verde no ano de 36, e foi extremamente influenciada pela literatura brasileira, especialmente pela nordestina. Nós temos poetas que de alguma forma imitaram Manuel Bandeira, não como plágio, mas por amor. José Lins do Rego e Guimarães Rosa foram muito lidos em Cabo Verde. Hoje é muito pouco.

P – O que se lê hoje em Cabo Verde?
GA
– Lê-se em Cabo Verde o que se lê em Portugal. Algum autor brasileiro publicado em Portugal tem hipóteses de chegar a Cabo Verde, mas não muitas.

P – O fato de existir o acordo ortográfico, ajuda o intercâmbio entre as literaturas dos oito países?
GA – Não acredito que o acordo ortográfico em si vá ajudar o intercâmbio. Não era a falta do acordo ortográfico que nos impedia de ler autores brasileiros. É evidente que é uma forma diferente de ler: quando encontro “fato” sem “c” e estou habituado a “facto”, com “c”. Do mesmo modo, quando encontro “terno” como se fosse “fato” me causa estranheza, mas isso são pormenores a que nós nos devemos habituar. Do mesmo modo, que quando escrevo em português uso imensas expressões e palavras do crioulo. Penso que o acordo ortográfico será mais uma pequena chatice. Mas acho que é necessário. Não devemos correr o risco de ter oito línguas diferentes a partir do português. Na medida em que é possível preservar esse instrumento que serve para expressar a cultura dos nossos países, isso é positivo. Penso que deve haver cedências para que haja um acordo de forma a não nos desviarmos demasiadamente uns dos outros. Dizer que me agrade particularmente, não. Aliás, eu vou continuar a escrever do mesmo modo que estou habituado, porque sei que alguém vai corrigir-me.

P – Alguns brasileiros reagiram, dizendo que os portugueses se acham “donos” da língua.
GA 
– Penso que essa afirmação é verdadeira. Os portugueses acham que são donos da língua, e isto é muito mau. Os portugueses precisam entender que a língua portuguesa é tanto deles como nossa. A língua foi deles, agora dividimos a língua. Temos que aceitar essa realidade. Aliás, afirmo orgulhosamente que a língua é tanto dos portugueses como minha língua, e não quero desfazer-me dela.

http://www.revistapessoa.com/artigo.php?id=33

Rádio Deutsche Welle (Língua Portuguesa) – 22/04

“Tartan – As Velas da Liberdade”

Por João Carlos, correspondente

“Tartan – As Velas da Liberdade” é um livro que relata as aventuras de seis jovens em pleno 1978, ano em que se assinala o terceiro aniversário da independência de Angola. Nessa altura, decidem fugir à guerra civil e partem a bordo de um veleiro em direcção a Portugal. Trata-se de uma histórica verídica contada três décadas depois pelos irmãos Silveira Ramos. A obra, prefaciada e apresentada em Lisboa pelo escritor angolano, José Eduardo Agualusa, já se encontra nas bancas pelas mãos da Porto Editora.


Link: www.dw-world.de/portugues

Encontro com Georges Didi-Huberman – 14/4

Por Fanny Chevillotte

Historiador da arte e professor na “Ecole des hautes études en sciences sociales”(EHESS), o filosofo Georges Didi-Huberman encontrou o seu publico português na Nova Livraria Francesa, que fica dentro do Institut Franco-Portugais, a 14 de Abril. Falando em francês, a conversação abordou o conjunto da sua obra  e a sua inquietação permanente a respeito do significado das imagens.

Com uma formação que tem como um dos seus pilares o estruturalismo -tendo como referencia Louis Marin- ele define-se igualmente como “fenomenólogo da imagem”, ou seja, tentar definir cada imagem como uma aparição única porque sem conhecer a sua força torna-se impossível afirmar que existam imagens em geral.

E a sua obra reflecte esta preocupação, com livros como Ce que nous voyons, ce qui nous regarde (1992) – traduzido para o português  com o título O que vemos, o que nos olha – ou L’image survivante. Histoire de l’art et temps des fantômes selon Aby Warburg (2002).

Actualmente, prepara uma exposição no museu da Reina Sofia em Madrid, que será inaugurada a 3 de Novembro de 2010, com o título Atlas. Seguindo as ideias de Aby Warburg e os seus Bilderatlas, Didi Hubermann apresentará um atlas das imagens do século XX, o que, nas suas palavras, promete polémica: traz o conjunto de imagens sem categorias nem cronologia, na tentativa de posicioná-las uma frente ás outras e  todas juntas frente ao futuro histórico.

Interrogação perpétua

O que motiva este conceito é uma construção filosófica sem as fronteiras entre os saberes, incluindo ao mesmo tempo uma psicanálise da imagem, numa reflexão que não discrimina a imagem do símbolo, e a sanidade da loucura (Invention de l’hystérie. Charcot  et l’Iconographie photographique de la Salpêtrière) e, por fim, uma poética da imagem em que se aprende a ver e a descrever, realçando a complexidade da leitura duma imagem. Coloca-se a questão: qual é a sua visibilidade?

Somos vítimas dum “analfabetismo” da imagem, porque a simplificamos. No entanto, é impossível pensar sem recorrer ás imagens. Há que considerá-la como “um conceito complexo”, pois a hierarquia palavra/imagem é um “não-problema”. Diante da “co-naturalidade da palavra e da imagem”, cabe modificar a nossa linguagem. Assim, Didi Hubermann insiste na necessidade da inquietação ante cada imagem, no sentido de que fazem parte do real de forma inesgotável.

Se entrar em engajamentos políticos, o critico propõe porém um “conceito politico da imaginação”, apoiando-se em Baudelaire por quem a imaginação é uma “ligação secreta entre as coisas”, ou seja, a faculdade de tecer vínculos de causalidades onde estes não existem. Porque, apesar de tudo, diante de cada imagem sempre surge a questão política.

Lançamento de “Memórias vivas do jornalismo” – 12/02

Por Fanny Chevillotte

Lançado ontem na Livraria Barata, o livro “Memórias vivas do jornalismo” é uma investigação sobre o jornalismo português, ao longo dos anos 40, 50, 60, marcado pelo salazarismo mas também pela mudança e inovação.

Os autores, Fernando Correia e Carla Baptista seleccionaram 17 entrevistas para compor as memórias vivas, com os seguintes jornalistas: Abílio Marques Pinto, Acácio Barradas, Afonso Serra, Daniel Ricardo, Edite Soeiro, Eduardo Gageiro, Fialho de Oliveira, Homero Serpa, João Coito, Joaquim Letria, José Carlos de Vasconcelos, Manuela de Azevedo, Maria Antónia Palla, Mário Ventura Henriques, Pedro Foyos, Roby Amorim e Urbano Tavares Rodrigues.

O recente título aprofunda a investigação e dá continuidade a outro livro dos autores lançado em 2007, “Jornalistas: do Ofício à Profissão. Mudanças no jornalismo português (1956-1968)”.

Memórias vivas do jornalismo” foi apresentado pelos jornalistas José Rebelo e Miguel Gaspar. A análise do jornalismo em perspectiva foi útil para a reflexão sobre a situação da profissão de hoje, e sobretudo foi um motivo para homenagear os jornalistas que actuaram em um tempo difícil.

Lançamento da Escrit’orio – literatura fantástica e ficção científica

Quatro histórias fantásticas e de ficção científica com BRINQUEDOS, forjadas na imaginação de quatro dos mais conceituados e inventivos escritores do género em Portugal. João Barreiros, David Soares, Luís Filipe Silva e João Ventura aceitaram o desafio da Escrit’orio e produziram contos repletos de originalidade e imaginação, subvertendo completamente o pendor cândido normalmente presente nas abordagens clássicas à temática dos Brinquedos!

http://www.atelierescritorioeditora.com/

Lançamento do livro “Memórias vivas do jornalismo”

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 23/01

Nabuco, Camões e Figueiredo Magalhães

Por Duda Guennes

Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo (1848-1910), diplomata, historiador, jurista, jornalista,fundador da Academia Brasileira de Le- tras e destacado líder abolicionista.

Francisco Bento Alexandre de Figueiredo Magalhães (1838-95) era médico formado no Porto. Em 1817, transfere-se para o Rio de Janeiro. Figueiredo Magalhães foi também jornalista, sustentando várias polémicas nos jornais cariocas, logo se revelando como a grande figura da cultura portuguesa no meio da colónia lusitana do Rio. Autor do livro Camões e os Portugueses do Brasil (Reparos Críticos), de grande repercussão no seu lançamento, em 1880.

Festejava-se neste mesmo ano, o III centenário de Luís de Camões. Dr. Figueiredo Magalhães achava-se com o direito de ser o orador oficial da solenidade, porém Teófilo Braga, presidente do Gabinete Português de Leitura, convidou Joaquim Nabuco, que anos antes havia escrito um livro sobre o Poeta Maior.

Figueiredo Magalhães não gostou da escolha e “rodou a baiana”. Em represália escreveu o livro supracitado.

“Exórdio. Proémio. Prefácio. Introdução. Prólogo. Preâmbulo. Prelúdio. Prefação”, começava assim, para mostrar erudição, Camões e os Portugueses do Brasil.

“Desconsideração cuspida na colónia portuguesa”, afirmou magoado o dr. Magalhães. E disse mais: «Li que a directoria do GPL convidara o Sr. Joaquim Nabuco para orador das festas com que tenciona celebrar o centenário de Camões, e admirei a força do piparote dado assim no inepto nariz de toda a colónia portuguesa…” “Eu protesto, em nome do meu patriotismo, e os assassinos dos créditos pátrios respondem que não haja um português decente para ir cumprimentar Camões no seu centenário.”

Figueiredo Magalhães achava que Nabuco “não sabia falar português correctamente, mas um patuá: o dialecto nabuqueano…” “A carnavalesca enfarruscada que o sr. Nabuco deu na cara de Camões.” E continuou com a sua diatribe: “O sr. Nabuco, arvorado em simples general de guerrilhas, falou dos amigos portugueses como Napoleão não pôde falar do inimigo Portugal, e disse de Camões o que Mafoma não disse do toucinho.”

“O sr. Nabuco fez no seu discurso alterações fónicas, morfológicas e sintácticas, que abalaram profundamente as células glóticas do organismo gramatical da língua portuguesa, e que desfiguraram o característico da sua fisionomia real…” “São esbeltas e robustas as formas do dialecto nabuqueano…” “para fugir dos aleijões tupi, parece descambar para a corcunda guarani”.

Não parou por aí: “O sr. Nabuco fabricou uma espécie de bolacha de água e sal para o fornecimento de ceia festival, onde Camões chuchou o beijo iscariótico dado pelo apóstolo que o vendeu a dez tostões”.

E com chave de ouro, concluiu: “A colónia portuguesa tem muitos indivíduos acima da altura marcada pelo sr. Nabuco na craveira literária do assunto; o Brasil tem dúzias de homens de letras muitíssimo mais elevados e maduros pelo sol da literatura clássica do que o verde e aliás talentoso orador escolhido.” & etc.

http://dn.sapo.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1476897

Trópico Ideias de Norte e Sul – Outubro 2009

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Portugal e a doença da identidade

Em novo livro, o filósofo José Gil reflete sobre a subjetividade portuguesa, do salazarismo até os dias atuais

por Renato Mendes

– trechos da entrevista com o filósofo José Gil –

Considerado um dos “25 grandes pensadores do mundo” pela revista francesa “Le Nouvel Observateur”, o filósofo português José Gil tornou-se também um êxito editorial com “Portugal Hoje – O Medo de Existir”. O polêmico livro foi reimpresso 11 vezes e vendeu mais de 50 mil exemplares. Portugal é novamente tema da reflexão do filósofo, na sua nova obra: “Em Busca da Identidade: O Desnorte”, lançada recentemente pela editora Relógio d’Àgua. A partir de conceitos de Ferenczi e Foucault, José Gil reflete sobre as subjetividades portuguesas e identifica na história mais recente de Portugal os processos que as originam.

Para o autor, o mal português é a hiperidentidade, construída em boa parte no período da ditadura salazarista. “Vivemos numa introjeção estilhaçada, entre o fim de uma neurose, o começo de uma psicose e a multiplicação de possíveis. A única maneira de remover o obstáculo da identidade é destruí-la como instância territorializante. Deixarmos de ser primeiro portugueses para poder existir primeiro como homens”, escreve. A Revolução dos Cravos (1974) divide o tempo português em dois momentos opostos e passa a ser um marco no processo de subjetivação -um processo de reconquista do eu, que é impraticável.

“O Desnorte” é um livro suscinto, mas de enorme densidade e sofisticação intelectual. A leitura remete o leitor para conceitos essenciais de pensadores que o inspiram -a introjeção e a subjetivação. Mas José Gil transgride, quando estende as fronteiras do seu pensamento ao coletivo.

Nascido em 1939, em Muecate (Moçambique), José Gil formou-se em filosofia na Sorbonne, em Paris, em 1968. Regressou a Portugal em 1976 e assumiu o cargo de adjunto do secretário de Estado no Ensino Superior e da Investigação Científica no quarto governo provisório do país.

Em 1981, tornou-se professor convidado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde permaneceu até 2009, quando se aposentou. Seu doutoramento, concluído em 1982, na Universidade de Paris VIII, foi feito sob a orientação do historiador da filosofia François Chatêlet.

O autor possui várias obras relevantes, que tratam de filosofia, artes, dança e literatura. Com somente dois livros publicados no Brasil, “Diferença e Negação na Poesia de Fernando Pessoa” (Relume Dumará) e “Movimento Total – O Corpo e a Dança” (Iluminuras), o autor diz que “Fernando Pessoa e a Metafísica das Sensações” foi praticamente o seu primeiro livro a ser lido no Brasil, em grande parte através de fotocópias que se fizeram. Em 2010 viajará ao país para participar de um colóquio internacional sobre “O Acaso”, promovido pela professora Maria Cristina Franco Ferraz colaboradora de Trópico.

Foi em Lisboa, no antigo bairro da Ajuda, em seu escritório repleto de livros, que o filósofo concedeu a entrevista a seguir, de quase duas horas. José Gil refletiu sobre as relações entre seus dois últimos livros, abordou o discurso político como elemento fundador de subjetividades, desconstruiu a expressão portuguesa “chico-espertismo” –equivalente ao “jeitinho” brasileiro- e apontou as causas para o nacionalismo larvar europeu.

*

De que forma “O Desnorte” está unido às reflexões do seu livro anterior, “Portugal Hoje – O Medo de Existir”?

José Gil: Em primeiro lugar recusei-me sempre a afirmar e aceitar que se procurasse no “Medo de Existir” uma descrição da identidade portuguesa: “os portugueses são pessoas que não assumem responsabilidades, que são invejosos” etc. Tudo isso, a cada entrevista que me faziam, vinha como se fosse um traço da identidade dos portugueses.

Acho que vem até ecos dessas respostas nas entrevistas que foram publicadas no fim do livro, nas últimas edições. Eu respondia sempre que não se trata da identidade dos portugueses, não é isso que me interessa. Eu não ando à procura da identidade, não sei o que é. A própria noção de identidade me parece muito controversa. O que eu procurei –por falta de melhor termo- foi descrever uma mentalidade, as mentalidades do povo português. Mentalidades que podem sedimentar-se, que podem durar muito tempo, mas que podem se modificar.

O “Medo de Existir” não trata da identidade portuguesa, eu não quero tratar disso. Mas há um problema dos portugueses com o que eles são. Quis analisar o que é esse problema dos portugueses e, ao mesmo tempo, ver se havia uma ligação entre o problema da identidade e aquele problema que está no centro do livro “Medo de Existir”, que é: por que isso não muda? Por que há uma resistência tão grande à mudança das mentalidades portuguesas? Então, essas questões deram origem a primeira parte do livro “Em Busca da Identidade: O Desnorte”. Esse é o primeiro elo que liga os dois livros…continua

A doença da identidade e a hiperidentidade têm a sua causa no “vírus do eu”, que é ditador e opressivo, escreve o senhor. Como se dá o surgimento e a evolução desta doença?

José Gil: Não sou historiador das ideias, seria necessário um genealogista de tipo Foucault. Não lhe posso dar uma baliza no tempo histórico português para o começo dessa doença da identidade. O que posso fazer é mostrar como ela é realmente uma doença, em primeiro lugar, e como se transforma e toma outros aspectos patológicos, quando passa do salazarismo para o 25 de Abril (Revolução dos Cravos)…continua

O senhor aplica um conceito de Ferenczi para descrever novas formas de subjetivação em busca da identidade. Poderia falar a respeito?

José Gil: Quando eu falo em patologia, evidentemente que estou a cometer aqui um pecado, quase uma blasfêmia, porque estou a transpor uma noção médica, da patologia psíquica individual para o coletivo. Ora, nós não sabemos ainda, ninguém sabe o que é uma patologia social, agimos sempre por analogia, por semelhança.

Em primeiro lugar, a tentativa de o fazer torna-se mais fácil com a utilização de determinados conceitos, que eu fui buscar a Ferenczi: o conceito de introjeção. Há uma descrição, de que eu cito um extrato, que é lindíssima –infelizmente, sobre o que faz um neurótico e o que é um neurótico. E, se o senhor já viu um neurótico –eu já vi muitos-, vê como Ferenczi, que era um homem de uma sutileza penetrante de inteligência, que viu e descreveu tal e qual faz um neurótico…continua

O senhor identifica no salazarismo um mecanismo que fundamenta a passagem da neurose para o plano coletivo. Para isso, é necessário um poder brutal. Como se sustenta a ideia da “neurose coletiva”?

José Gil: Eu não sustento –os psiquiatras sabem disso. As condições que rodeiam e que constituem o território do neurótico, ou do psicótico, sobretudo, são condicionadas de tal maneira que, em vez de estarmos em presença de um delírio –psicose- ou de um fantasma –neurose-, estamos em presença de uma realidade.

Por exemplo: a família com um pai paranóico digamos que é um território fechado. Ele tem mulher e filhos. Se ele tem a possibilidade de fazer-se obedecer, e fazer com que aquilo que ele diz e delira seja realmente efetuado pelos membros da sua família, nós verificamos que esse homem adquiriu uma certa “saúde”, quer dizer, expurgou a sua patologia, de certa maneira induzindo-a nos membros da família, na rede de comportamentos da família. …continua

“Esta entrevista foi originalmente publicada na revista cultural “Trópico”, do UOL (www.uol.com.br/tropico)”.

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