01/11/2009
por Mariana Delgado
Portugal e a doença da identidade
Em novo livro, o filósofo José Gil reflete sobre a subjetividade portuguesa, do salazarismo até os dias atuais
por Renato Mendes
– trechos da entrevista com o filósofo José Gil –
Considerado um dos “25 grandes pensadores do mundo” pela revista francesa “Le Nouvel Observateur”, o filósofo português José Gil tornou-se também um êxito editorial com “Portugal Hoje – O Medo de Existir”. O polêmico livro foi reimpresso 11 vezes e vendeu mais de 50 mil exemplares. Portugal é novamente tema da reflexão do filósofo, na sua nova obra: “Em Busca da Identidade: O Desnorte”, lançada recentemente pela editora Relógio d’Àgua. A partir de conceitos de Ferenczi e Foucault, José Gil reflete sobre as subjetividades portuguesas e identifica na história mais recente de Portugal os processos que as originam.
Para o autor, o mal português é a hiperidentidade, construída em boa parte no período da ditadura salazarista. “Vivemos numa introjeção estilhaçada, entre o fim de uma neurose, o começo de uma psicose e a multiplicação de possíveis. A única maneira de remover o obstáculo da identidade é destruí-la como instância territorializante. Deixarmos de ser primeiro portugueses para poder existir primeiro como homens”, escreve. A Revolução dos Cravos (1974) divide o tempo português em dois momentos opostos e passa a ser um marco no processo de subjetivação -um processo de reconquista do eu, que é impraticável.
“O Desnorte” é um livro suscinto, mas de enorme densidade e sofisticação intelectual. A leitura remete o leitor para conceitos essenciais de pensadores que o inspiram -a introjeção e a subjetivação. Mas José Gil transgride, quando estende as fronteiras do seu pensamento ao coletivo.
Nascido em 1939, em Muecate (Moçambique), José Gil formou-se em filosofia na Sorbonne, em Paris, em 1968. Regressou a Portugal em 1976 e assumiu o cargo de adjunto do secretário de Estado no Ensino Superior e da Investigação Científica no quarto governo provisório do país.
Em 1981, tornou-se professor convidado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde permaneceu até 2009, quando se aposentou. Seu doutoramento, concluído em 1982, na Universidade de Paris VIII, foi feito sob a orientação do historiador da filosofia François Chatêlet.
O autor possui várias obras relevantes, que tratam de filosofia, artes, dança e literatura. Com somente dois livros publicados no Brasil, “Diferença e Negação na Poesia de Fernando Pessoa” (Relume Dumará) e “Movimento Total – O Corpo e a Dança” (Iluminuras), o autor diz que “Fernando Pessoa e a Metafísica das Sensações” foi praticamente o seu primeiro livro a ser lido no Brasil, em grande parte através de fotocópias que se fizeram. Em 2010 viajará ao país para participar de um colóquio internacional sobre “O Acaso”, promovido pela professora Maria Cristina Franco Ferraz colaboradora de Trópico.
Foi em Lisboa, no antigo bairro da Ajuda, em seu escritório repleto de livros, que o filósofo concedeu a entrevista a seguir, de quase duas horas. José Gil refletiu sobre as relações entre seus dois últimos livros, abordou o discurso político como elemento fundador de subjetividades, desconstruiu a expressão portuguesa “chico-espertismo” –equivalente ao “jeitinho” brasileiro- e apontou as causas para o nacionalismo larvar europeu.
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De que forma “O Desnorte” está unido às reflexões do seu livro anterior, “Portugal Hoje – O Medo de Existir”?
José Gil: Em primeiro lugar recusei-me sempre a afirmar e aceitar que se procurasse no “Medo de Existir” uma descrição da identidade portuguesa: “os portugueses são pessoas que não assumem responsabilidades, que são invejosos” etc. Tudo isso, a cada entrevista que me faziam, vinha como se fosse um traço da identidade dos portugueses.
Acho que vem até ecos dessas respostas nas entrevistas que foram publicadas no fim do livro, nas últimas edições. Eu respondia sempre que não se trata da identidade dos portugueses, não é isso que me interessa. Eu não ando à procura da identidade, não sei o que é. A própria noção de identidade me parece muito controversa. O que eu procurei –por falta de melhor termo- foi descrever uma mentalidade, as mentalidades do povo português. Mentalidades que podem sedimentar-se, que podem durar muito tempo, mas que podem se modificar.
O “Medo de Existir” não trata da identidade portuguesa, eu não quero tratar disso. Mas há um problema dos portugueses com o que eles são. Quis analisar o que é esse problema dos portugueses e, ao mesmo tempo, ver se havia uma ligação entre o problema da identidade e aquele problema que está no centro do livro “Medo de Existir”, que é: por que isso não muda? Por que há uma resistência tão grande à mudança das mentalidades portuguesas? Então, essas questões deram origem a primeira parte do livro “Em Busca da Identidade: O Desnorte”. Esse é o primeiro elo que liga os dois livros…continua
A doença da identidade e a hiperidentidade têm a sua causa no “vírus do eu”, que é ditador e opressivo, escreve o senhor. Como se dá o surgimento e a evolução desta doença?
José Gil: Não sou historiador das ideias, seria necessário um genealogista de tipo Foucault. Não lhe posso dar uma baliza no tempo histórico português para o começo dessa doença da identidade. O que posso fazer é mostrar como ela é realmente uma doença, em primeiro lugar, e como se transforma e toma outros aspectos patológicos, quando passa do salazarismo para o 25 de Abril (Revolução dos Cravos)…continua
O senhor aplica um conceito de Ferenczi para descrever novas formas de subjetivação em busca da identidade. Poderia falar a respeito?
José Gil: Quando eu falo em patologia, evidentemente que estou a cometer aqui um pecado, quase uma blasfêmia, porque estou a transpor uma noção médica, da patologia psíquica individual para o coletivo. Ora, nós não sabemos ainda, ninguém sabe o que é uma patologia social, agimos sempre por analogia, por semelhança.
Em primeiro lugar, a tentativa de o fazer torna-se mais fácil com a utilização de determinados conceitos, que eu fui buscar a Ferenczi: o conceito de introjeção. Há uma descrição, de que eu cito um extrato, que é lindíssima –infelizmente, sobre o que faz um neurótico e o que é um neurótico. E, se o senhor já viu um neurótico –eu já vi muitos-, vê como Ferenczi, que era um homem de uma sutileza penetrante de inteligência, que viu e descreveu tal e qual faz um neurótico…continua
O senhor identifica no salazarismo um mecanismo que fundamenta a passagem da neurose para o plano coletivo. Para isso, é necessário um poder brutal. Como se sustenta a ideia da “neurose coletiva”?
José Gil: Eu não sustento –os psiquiatras sabem disso. As condições que rodeiam e que constituem o território do neurótico, ou do psicótico, sobretudo, são condicionadas de tal maneira que, em vez de estarmos em presença de um delírio –psicose- ou de um fantasma –neurose-, estamos em presença de uma realidade.
Por exemplo: a família com um pai paranóico digamos que é um território fechado. Ele tem mulher e filhos. Se ele tem a possibilidade de fazer-se obedecer, e fazer com que aquilo que ele diz e delira seja realmente efetuado pelos membros da sua família, nós verificamos que esse homem adquiriu uma certa “saúde”, quer dizer, expurgou a sua patologia, de certa maneira induzindo-a nos membros da família, na rede de comportamentos da família. …continua
“Esta entrevista foi originalmente publicada na revista cultural “Trópico”, do UOL (www.uol.com.br/tropico)”.
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