Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 01/05
03/05/2010 Deixe um comentário
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Argentina e Uruguai: o fim de um conflito?
Por Miguel Rivero, delegado do semanário catalão “El Triangle”

Protesto na ponte que separa a Argentina do Uruguai
A Tribunal Internacional de Justiça da Haia emitiu a dia 20 de Abril um veredicto sobre o conflito que, desde 2006, opõe a Argentina e o Uruguai por causa da construção de uma fábrica de pasta de celulose nas margens do rio Uruguai, que faz fronteira com os dois países. O veredicto é inapelável e vinculativo e tem de ser acatado pelas duas partes.
O veredicto, extremamente equilibrado, não deu razão absoluta a nenhuma das partes e, se bem que ambos os governos se tenham dado por satisfeitos, do lado uruguaio havia mais alegria por terem obtido uma maior quota – parte de razão que os argentinos, especialmente na questão essencial da queixa: a fábrica não contamina. Se assim não fosse – e era esse o maior temor do Uruguai – podia ter-se visto obrigado a desmantelar a fábrica com todas as implicações politicas e económicas daí decorrentes.
A sentença centrou-se em factos provados e não em especulações ou desejos: a violação do tratado do Rio Uruguai por parte do governo de Montevideu e a incapacidade do Governo argentina de comprovar a contaminação do rio. O Tribunal dividiu a sua sentença em três partes: por um lado, assinalou que o Uruguai “incumpriu obrigações processuais” (aprovado por 13 votos contra um), por outro disse que o Uruguai “não cumpriu obrigações de fundo (11 votos contra três) e, por unanimidade, rejeitou as restantes pretensões da Argentina.
O Tribunal reconheceu que o “Uruguai transmitiu à Comissão Administrativa do Rio Uruguai a informação” exigida relativamente à fábrica de celulose, apesar de todos os pedidos feitos nesse sentido, as acrescentou também que naõ dispunha de provas para determinar se houve ou não contaminação sonora e visual. Critério semelhante foi aplicado aos maus cheiros alegados pela Argentina.
Logo após ser conhecido o veredicto, a imprensa dos dois países tentou evidenciar a vitoria da sua posição Enquanto os argentinos puseram em destaque a violação do Tratado do Rio Uruguai, os uruguaios centraram os comentários na inexistência de uma ordem que os obrigasse ao encerramento da fábrica.
Por estas e por outras reacções, não se pode garantir que o conflito tenha terminado.
Argentinos inconformados
Milhares de ecologistas e habitantes de Gualeguaychú (Argentina) rejeitaram o veredicto do Tribunal da Haia favorável à gigantesca fábrica de pasta de celulose de Fray Bentos (Uruguai), manifestando-se na ponte que une as duas cidades. A manifestação contestou principalmente a posição do tribunal de que não há provas de contaminação ambiental.
Na origem de um diferendo ambiental
A 9 de Novembro, a fábrica de papel que está na origem deste conflito completou dois anos de actividade. Nessa data foi divulgado um estudo argentino denunciando que a fábrica lança no rio Uruguai nonilfenol, substância química que, “em doses elevadas, pode alterar o sistema hormonal”. No entanto, fontes uruguaias negam que a fábrica utilize o nonilfenol.

Era difícil imaginar, há uns anos, que Baltasar Garzón, o juiz espanhol mais louvado de sempre, ia ser objecto de um inquérito por parte do Supremo Tribunal, correndo o risco de ser suspenso da sua actividade.

