Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 09/10

Uma herança envenenada

Por Katalin Muharay, jornalista húngara do ‘Heti Világgazdaság’ 

Passadas duas décadas de fim do bloco socialista, a falta de preocupação ambiental nos acordos comerciais entre a pequena Hungria e “irmão maior”, ainda tem consequências dramáticas.

Nos anos 60 Hungria, com grandes reservas de bauxite, assinou um acordo com Moscovo para a produção de alumínio. As fábricas húngaras produziram óxido de alumínio, que a União Soviética transformava em alumínio. Da divisão da produção resultou que a totalidade do desperdício tóxico ficou em território húngaro. Com a mudança de regime nos anos 90, a indústria de alumínio húngara não deveria ter sobrevivido. Mas conseguiu-o, principalmente graças a falta de regulação que ate hoje facilita o depósito de resíduos tóxicos.

Além do reservatório da Sociedade de Produção de Alumínio (MAL) de onde saíram quase um milhão de metros cúbicos de lama alcalina, existem na Hungria outros depósitos com materiais corrosivos, todos considerados “bombas de relógio” ecológicas.

“Um tsunami vermelho”, descrevem as pessoas afectadas a onda de lama de mais de dois metros de altura, que avançou destruindo todo o ecossistema numa zona de 40 quilómetros quadrados. O lodo alcalino pintou a paisagem de vermelho e condenou a morte zonas habitacionais, terrenos férteis, e águas fluviais. Apesar dos esforços de parar o vertido tóxico, este, mesmo que em forma mais diluída, já chegou ao rio Danúbio.

Não há certezas sobre as causas da catástrofe. O governo conservador fala de provável erro humano, enquanto o proprietário do reservatório insiste nas causas naturais. As acusações políticas já começaram. A direita tenta envolver o ex Primeiro-ministro socialista, Ferenc Gyurcsány, que foi sócio em outras empresas de alumínio do dono da MAL, e a oposição chama a atenção que duas semanas antes da catástrofe, uma comissão governamental de fiscalização garantiu que estava tudo em ordem nas instalações.

Durante décadas, Hungria acumulo 30 milhões de toneladas de lama alcalina, o desperdício de bauxite na fabricação do alumínio. E essa quantidade aumenta cada ano em entre 600 e 800 mil toneladas, aponta o jornal Népszabadság  .

Várias pessoas vivem muito bem hoje de uma indústria que foi privatizada abaixo do valor real e que pôde contar com preços de energia favoráveis. As contrapartidas seriam justamente as obrigações de preservação do ambiente, que como a tragédia recente demonstra, não foram cumpridas. A lama vermelha pode ser acumulada praticamente sem custos, num depósito feito com paredes de terra e entulho.

Neutralizar uma tonelada de lama vermelha custaria 370 euros. Tratar 30 milhões de toneladas seria uma quantia superior a toda a produção de alumínio num século.

Na maioria dos casos, a solução encontrada para tratamento é simples: cobri-la com outros resíduos tóxicos.

George Soros ofereceu ajuda

A Greenpeace húngara já detectou elevado nível de arsénio nas aguas da região, mas o pior ainda pode acontecer se não for possível retirar a totalidade da lama derramada, que com o tempo vai secar e converter-se em poeira, que ficará no ar e continuará a envenenar pessoas e ambiente. A tragédia humana é de tal magnitude, que o financista multimilionário americano de origem húngara, George Soros, já ofereceu um milhão de dólares de ajuda às vítimas.

Habitantes não conheciam o perigo

Se o acidente tivesse acontecido durante a noite, o número de vítimas seria muito mais elevado. Mas o grande número de feridos deve-se também ao desconhecimento de perigosidade da lama. Muitas pessoas ficaram horas no líquido tóxico a tentar salvar pessoas, bens e animais de estimação. Uma mulher salvo o seu filho levantando-o encima da cabeça, enquanto ela ficou dentro da lama sofrendo queimaduras graves.

http://dn.sapo.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1681309&seccao=Europa

Cartoon

Por Patrick Chappatte, Nzz Am Sonntag

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 04/09

Os mineiros que comovem o mundo

por Mario Dusijin, jornalista chileno

 A coragem e o optimismo dos 33 trabalhadores encurralados na mina de San José comoveram o mundo, que tem acompanhado em directo as notícias, num envolvimento mediático quase sem precedentes – um interesse que só se tornou possível graças ao envio de uma pequena câmara de filmar até às profundezas desses negros túneis, proporcionando imagens dramáticas.

Sem estas imagens, rudimentares mas comoventes, dificlmente os órgãos de informação internacionais teriam dedicado mais do que umas escassas linhas e durante poucos dias a este drama, semelhante a tantos outros que com uma frequência aterradora ocorrem em países imensos como a China ou na antiga União Soviética.

Graças a sofisticados artefactos tecnológicos, enviam-se imagens dos rostos destes mineiros, homens duros forjados no árido deserto do Atacama, enquanto à superfície máquinas perfuradoras, operários, engenheiros, geólogos e psicólogos dividem esforços numa tarefa titânica, contra o tempo e carregada de dramatismo.

Tudo isto condimentado com uma boa dose de emoção que enternece o mundo e num país onde vigora uma economia aberta sem restrições, na qual os agentes são livres para empreender actividades produtivas, com uma opinião pública que aceita a colheita desses frutos mas agora exige aos empresários que assumam a responsabilidade pela catástrofe e ao Estado explicações pela falta de fiscalização da mina.

O impacto de San José marca uma fronteira temporal em relação à legislação laboral e às responsabilidades empresariais e políticas. O acidente na mina criou a consciência de que são necessárias acções de fundo. Apesar de haver uma componente de azar em todos os acidentes, é sobre as acções e as omissões dos empresários que quase sempre recai a maior parcela de culpa.

No Chile parece normal que nas minas se abram cavernas em vez de túneis ou que existam jornadas laborais de 12 horas. Uma responsabilidade que não recai apenas nos empresários sem escrúpulos, mas também em quem os autorizou a isso: os sucessivos governos chilenos desde o restabelecimento da democracia, em 1990, que ainda não desterraram as teorias de Milton Friedman.

Chilenos exigem responsabilidades

A opinião pública começa a exigir que se aplique todo o peso da lei aos empresários para o apuramento de responsabilidades civis ou criminais neste acidente que reúne o melhor e o pior da realidade laboral chilena e de um modelo de crescimento baseado na indústria extractiva de recursos naturais virada para a exportação que o país tem privilegiado desde 1973.

Notícia misturada com entretenimento

A lógica televisiva converteu este acidente laboral num espectáculo de massas. As principais televisões do mundo acamparam junto à mina, com o árido deserto como dramático pano de fundo, relatando o drama destes heróis do trabalho mineiro da única maneira que dominam: a montagem audiovisual ao serviço de um formato que mistura notícia com entretenimento.

http://dn.sapo.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1655524&seccao=EUA

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.