06/03/2010
por Mariana Delgado

‘Politiken’: traição ou senso comum?
Por Eva Henningsen, jornalista freelance
Na semana passada, o diário dinamarquês Politiken publicou um pedido de desculpas, em dinamarquês e inglês, por ter publicado 12 cartoons do profeta Maomé, em 2005 e 2008. O pedido de desculpas está, no entanto, a provocar acusações de traição, cobardia e falta de princípios contra o Politiken. Quando os 12 cartoons foram publicados pela primeira vez, em 2005, causaram uma onda de protestos no mundo islâmico. As empresas dinamarquesas que exportam para esses países perderam milhares de milhões de dólares devido ao boicote de que foram alvo, duas embaixadas (Damasco e Beirute) foram incendiadas e 139 pessoas (na maioria muçulmanos) foram mortas em confrontos.
Nunca os dinamarqueses haviam feito tantos inimigos de uma só vez, mas os jornais não desistiram. Em 2008, após novas ameaças de muçulmanos, voltaram a publicar os cartoons e o director do Politiken, Tøger Seidenfaden garantiu: “É importante não ceder ao terror.” Porque Seidenfaden e o Politiken mudaram de ideias agora? A resposta reside numa palavra: Yamani. Em Agosto de 2009, um advogado saudita chamado Faisal Yamani, que se apresentou como representante dos 94 500 descendentes vivos do profeta Maomé, escreveu ao Politiken e a outros jornais a alertar que iriam ser processados se não pedissem desculpas por terem publicado os cartoons.
Todos ignoraram a carta, mas o Politiken decidiu não o fazer. Uma vez que Faisal Yamani é filho do antigo ministro do Petróleo e presidente da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) Ahmed Zaki Yamani, que a família Yamani é muito influente e que a Arábia Saudita é o líder natural do mundo islâmico, Seidenfaden aceitou encontrar-se com Yamani. Numa entrevista, Seidenfaden explica: “A principal razão da nossa decisão foi o desejo de diálogo. É um protagonista importante no mundo islâmico que agora quer trabalhar lado a lado para encerrar este assunto.”
A decisão de Seidenfaden é especialmente difícil de aceitar para Kurt Westergaard, autor do cartoon de Maomé com uma bomba no turbante, que escapou recentemente a uma tentativa de assassínio por parte de dois jovens muçulmanos. “O Politiken desistiu da liberdade de imprensa”, afirmou.
Processo contra 15 outros jornais
Após o pedido de desculpas do Politiken, o advogado Yamani prepara-se agora para processar 15 outros jornais por terem publicado os cartoons de Maomé. Yamani planeia levar adiante os julgamentos para obrigar os jornais a cumprirem os desejos dos seus quase cem mil clientes, descendentes de Maomé. Mas recusa dizer quanto vai pedir em indemnizações.
http://dn.sapo.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1512167&seccao=Europa
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