Diário de Notícias – Coluna Visto de cá – 28/04/12

 “A viagem mais polémica do Rei”

Por Belén Rodrigo, correspondente do ‘ABC’

Podia ter sido mais uma viagem, como as muitas outras que o Rei Dom Juan Carlos tem feito ao longo do seu reinado. Mas a saída do monarca para o Botsuana acabou por criar mais polémica do que qualquer uma outra. O motivo da viagem, a companhia, o momento que atravessa o país e o estado de saúde do Rei deitaram abaixo, em poucas horas, a sua boa reputação.

Enquanto em Espanha só se falava do desemprego e da crise económica, Dom Juan Carlos realizava um safari em Botsuana, avaliado em 46 mil euros, onde foi caçar elefantes (ele preside uma fundação ecológica). Aos 74 anos, relativamente limitado em movimentos pelo seu estado de saúde, a aventura acabou no hospital, depois da sua queda. Foi assim que se soube onde estava o Rei e o que andava a fazer.

Não estaríamos provavelmente a falar disto se o incidente não tivesse acontecido. Mas aconteceu e as críticas choveram de todos os lados, até dos mais monárquicos, só suavizaram depois do pedido de desculpas do Rei. Mais uma vez, Juan Carlos voltou a marcar diferença quando, da forma mais natural possível, se dirigiu aos espanhóis para pedir perdão pelo seu comportamento. Um pedido de desculpas histórico em toda a monarquia espanhola.

Outros dados importantes foram saindo à luz. Quem pagou a caçada foi o empresário sírio Mohamed Eyad Kayali, mão direita em Espanha do príncipe Salman, ministro da Defesa da Arábia Saudita e amigo íntimo do Rei de Espanha. O príncipe Salman tem sido uma grande ajuda na concessão a empresas espanholas de construção da linha de comboio de alta velocidade de Medina e de Meca.

Como leitura positiva da polémica penso que deve ficar a maturidade da democracia espanhola. Os espanhóis estão atentos ao que acontece na classe política e na sua monarquia e sabem que, em tempos de crise, ninguém deve fugir às suas responsabilidades. Já foram os tempos em que ninguém sabia nada ou pedia explicações.

O Rei de Espanha voltou a mostrar o seu lado mais humano, e por isso foi aceite o seu pedido de desculpas pelos espanhóis. Ninguém pode dizer que não cometeu erros, todos os cometem, mas nem todos sabem reconhecê-lo. Como fez o Rei Dom Juan Carlos de Espanha.

O safari africano no Parlamento

Os partidos IU, ICV, ERC y UPyD querem ter mais detalhes sobre a caçada do monarca. No total, os quatro partidos apresentaram 61 perguntas, das quais o Congresso aceitou 27, amparado em três artigos da Constituição que dizem que a pessoa do Rei “é inviolável e não está sujeita à responsabilidade” e que o dinheiro recebido do Estado “o distribui livremente”.

Nona intervenção cirúrgica

O Rei Dom Juan Carlos foi operado ontem pela nona vez desde os anos 80. Um mau movimento feito pelo monarca espanhol provocou uma nova cirurgia apenas 11 dias depois de ter sido operado à anca. Do total de nove intervenções cirúrgicas, três delas foram por acidentes quando estava a fazer desporto e o resto por motivos de saúde.

Link: http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=2445695&page=1

Diário de Notícias – Coluna Visto de cá – 14/04/12

“Canábis ilegal contra a crise na Catalunha”

Por Begoña Íñiguez, correspondente na rádio Cadena Cope

A pequena localidade catalã de Rasquera, na província de Terragona, de 900 habitantes, situada muito perto da foz do rio Ebro, converteu-se na última semana num autêntico circo mediático composto por centenas de jornalistas oriundos de todos os continentes. O motivo, a convocação por parte do autarca Bernat Pellissa, na última terça-feira, de um referendo vinculativo para perguntar aos habitantes da povoação se aprovavam o aluguer dos terrenos públicos, de sete hectares cada um, para plantar canábis a grande escala, em duas grandes estufas de mil metros quadrados cada uma, com o objetivo de sanear as contas da autarquia, uma das mais endividadas da Catalunha.

O resultado obtido no referendo não está isento de polémica, já que o sim ganhou mas com pouca margem, com 56,3% de votos a favor contra 43,7%. Resultado insuficiente, na opinião de muitos habitantes de Rasquera, já que o autarca tinha dito uns dias antes que se o sim não tivesse 75% dos votos, ele se demitia e o projeto não avançaria. Além disso, como o cultivo de canábis para uso público é ilegal em Espanha, as autoridades do Governo autónomo da Catalunha não tardaram em reagir. O conselheiro catalão do Interior, Felip Puig, alertou que “se a plantação se materializa”, a polícia atuará rapidamente. “Se a polícia descobre uma plantação de canábis na Catalunha, os agentes apresentarão queixa e colocarão o tema à disposição dos procuradores, que deverão decidir se é crime ou não”, disse Puig. O resultado do referendo “não altera nem o Código Penal vigente em Espanha nem a atuação policial”.

A polémica continuará nas próximas semanas porque, apesar de o autarca de Rasquera ter anunciado a demissão, disse também que o projeto avançará sem ele. “A minha demissão não implica nada, isso não quer dizer que o projeto não tenha que continuar”, indicou Pellissa, que governa com maioria absoluta e que, três semanas antes do referendo, abandonou o partido político ao qual pertencia, a Esquerda Republicana da Catalunha. Durante os próximos dias, Pellissa comprometeu-se a revelar os detalhes do projecto, depois de se reunir com os vereadores e assessores jurídicos da Associação Barcelonesa Canábica de Auto-Consumo, a entidade responsável pela construção e gestão da plantação, que entregará à autarquia 1,3 milhões de euros até 1014 e prometeu criar 40 postos de trabalho na localidade.

Diário de Notícias – Coluna Visto de cá – 10/03/12

Rajoy marca território da Europa

Por Begoña Íñiguez, correspondente na rádio Cadena Cope

Apenas dois meses depois de ter tomado posse, o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, surpreendeu há uns dias a opinião pública internacional com um golpe de teatro, ao anunciar em Bruxelas que o objetivo do défice público para 2012 será de 5,8% do PIB, longe dos 4,4% exigidos pelas instituições europeias.

Mariano Rajoy vai cumprir o défice exigido pela UE

Mariano Rajoy vai cumprir o défice exigido pela UE

O facto de Rajoy ter reconhecido publicamente na capital comunitária que Espanha não vai alcançar este ano o objetivo de défice e de ter estabelecido outro “aceitável, sensato e lógico”, segundo as suas palavras, supõe para os analistas um desafio evidente e uma tomada de posição ativa perante os seus parceiros europeus. Depois da decisão de Espanha, abriu-se caminho para que outros países com alto défice possam fazer anúncios semelhantes. Pelo que não é de estranhar que a Comissão Europeia tenha, horas depois, considerado o novo objetivo de Rajoy como “grave”.

Chamou À atenção que o primeiro-ministro tenha afirmado, também em Bruxelas, que não havia comunicado oficialmente à Comissão, nem ao resto dos seus parceiros e que não via problema nisso “porque Espanha alcançará a meta de défice de 3% em 2013”. Rios de tinta correram sobre o tema na imprensa espanhola durante a última semana.

Para muitos, parece ser claro que os contactos diplomáticos prévios e as conversações “não oficiais” com alguns governantes, entre eles a chanceler alemã, Angela Merkel, possibilitaram que Rajoy tivesse luz verde para anunciar que Espanha relaxaria os seus compromissos para 2012.

A tarefa do Executivo de Rajoy de baixar o défice, dos 8,51% com que fechou 2011 para 5,8% é, para muitos, difícil, árdua e impossível. Para o conseguir, as Administrações Públicas espanholas terão de realizar em 2012 um ajuste de 15 mil milhões de euros. A Administração Central terá um teto máximo de défice de 4%, as Comunidades Autónomas de 1,5% e as Administrações locais de 0,3%. Dos ajustes anteriores, o mais difícil de conseguir será, sem dúvida, o das regiões.

Com este panorama de fundo, ganhar cada vez mais consistência a reformulação, a partir de Madrid, do financiamento autonómico e das suas competências. A Catalunha, outra das grandes endividadas, defende também o cofinanciamento na Saúde, uma possibilidade que parece, neste momento, descartada por Mariano Rajoy.

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 11/02/12

 Será que os jubileus salvam a monarquia?

Por Alison Roberts, jornalista “freelance” britânica

Em 2002, os 50 anos de reinado da Rainha foram marcados com celebrações impressionantes, só cinco anos depois de os ressentimentos espoletados pela morte de Diana terem levantado a questão da sobrevivência da monarquia. Agora, com a austeridade a imperar num reino cada vez menos unido, o Jubileu de Diamante oferece outra oportunidade para fortalecer o atual regime.

Rainha Isabel II visitou uma escola na segunda-feira, no jubileu

Rainha Isabel II visitou uma escola na segunda-feira, no jubileu

Esta semana foi o 60º aniversário da morte de Jorge VI e a elevação da sua filha à rainha. De monarcas britânicas, só a Vitória reinou mais tempo. O 6 de fevereiro foi marcado por salvas de canhões em Hyde Park e na Torre de Londres. Mas já que a coroação só teve lugar em junho de 1953, foi esse o mês escolhido para as festas mais vistosas, entre elas uma no Palácio de Buckingham onde atuarão os Sirs do costume – Paul McCartney ou Elton John.

Ainda mais espetacular será o cortejo suntuoso no Tamisa, no qual até mil embarcações de todos os tipos e tamanhos poderão participar. Seria a maior esquadra em 350 anos, lembrando um evento retratado por Canaletto, feito para impressionar os súbditos.

Mas no meio dos cortes na despesa pública, o custo (12 milhões de euros) do cortejo não será pago pelo estado, mas sim por doações. Houve também polémica sobre a proposta de encomendar um novo iate real. O Governo descartou rapidamente a ideia.

A rainha terá que recorrer a um iate emprestado por um magnata para a digressão de cinco meses que fará a partir de março por ar, terra e mar, “para rededicar-se ao povo”. Será, provavelmente, mais uma prova de como a generalidade do povo a admira ou reconhece a sua resistência e dedicação.

O problema é que o seu delfim está longe de ter o mesmo estatuto. Carlos é conhecido por intrometer-se em assuntos de Estado. Nisto, os relatos de ele ter apoiado a ideia de um novo iate não ajuda nada.

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 08/01/12

Canadá e os seus protocolos

Por Alison Roberts, jornalista “freelance” britânica

A deportação da família Sebastião para os Açores deu ao Canadá manchetes em Portugal que não costuma ter. Embora a expulsão de cidadãos portugueses do país se dê com relativa frequência, ninguém se lembra de uma família tão numerosa – dez pessoas, embora nem todos portugueses – ter sido sujeita a tal procedimento.

No entanto, na comunicação social do próprio Canadá, a história não teve tanta cobertura. Os protestos da comunidade síria contra a deportação de um crítico do regime Assad tiveram mais eco. Ultimamente o que mais há nos média são notícias sobre deportações – de países que vão da Somália ao México – e sobre a política da imigração. Esta tem sido uma prioridade para o Partido Conservador, que ganhou as eleições de Maio após prometer agilizar as deportações. O alvo principal, dizia, seriam criminosos que estarão a aproveitar-se dos recursos para ficarem.

Já no mandato anterior, ainda sem maioria absoluta, tinha vindo a alterar a política. Em 2009 houve 50% mais deportações que uma década antes – uma prova, diziam os defensores dos imigrantes, de um sistema demasiado agressivo. A esmagadora maioria não eram criminosos, mas candidatos ao estatuto de refugiados, de acordo com o próprio Governo. Quando eu migrei em criança para o Canadá (a família acabou por fazer marcha atrás uns anos mais tarde) a maior parte dos imigrantes tinha vindo da Europa, sobretudo das Ilhas Britânicas.

Hoje em dia, as fontes são mais diversas, e cada vez mais recém-chegados reclamam o estatuto de refugiado: 35mil em 2009 (No caso dos açorianos, esta reclamação só atrapalhou a sua situação). As atitudes da população deste país de imigração por excelência têm estado a mudar. Em 2010, as sondagens mostravam que uma maioria não queria acolher tamiles caçados das suas aldeias pelo Exército de Sri Lanka.

Recentemente, o Governo federal resolveu tornar obrigatório às muçulmanas mostrar as suas caras quando fazem o juramento para adquirir a nacionalidade, enquanto a província de Quebeque debate legislação para barrar o véu em utentes de alguns serviços oficiais. A ideia do Canadá como um país bondoso, de coração e portas abertas, está em crise.

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 26/11/11

Verdade e mentira

Por Alison Roberts, jornalista “freelance” britânica

O inquérito à imprensa agora a decorrer em Londres parece um toque de chamada dos famosos, que fazem fila para testemunhar. Mas foram os pais da Madeleine McCann, a menina desaparecida no Algarve, que deixaram o apelo mais sonante por uma regulação mais forte.

Ao contrário da televisão e rádio, a imprensa britânica está sob auto-regulação, por um conselho nomeada pela própria indústria.

O Inquérito Leveson à Cultura, Pratica e Ética da Imprensa, presidido por um juiz, foi criado depois das revelações sobre escutas feitas pelo semanário News of the World, entretanto fechado. Mas abrange questões mais vastas, tendo grandes implicações para os média.

Na quinta-feira a J. K. Rowling, criadora de Harry Potter, contou como tentou proteger os seus filhos dos tablóides. Um repórter chegou até ela, metendo uma carta na mala da sua filha de cinco anos.

No mesmo dia testemunharam também a actriz Sienna Miller e o ex-chefe da Fórmula Um, Max Mosley. E o advogado Mark Thomson argumentou que a imprensa não tirou as devidas lições da morte da princesa Diana.

O momento mais notório até agora foi quando os pais da menina assassinada Milly Dowler contaram como pensaram que a sua filha ainda estava viva, quando perceberam que mensagens tinham sido apagadas do seu voice mail. Na verdade, foi um empregado do News of the World que o fez, para que a família deixasse mais mensagens para ele utilizar em reportagens.

Embora tudo isso já fosse sabido, ouvir a mãe da Milly contá-lo marcou todos.

Entretanto, Hugh Grant, outra vítima, alegou que o Mail on Sunday terá feito escutas semelhantes – o que foi negado por esse semanário.

Mas foi na quarta-feira que Gerry McCann contou que muitos dos artigos publicados na imprensa britânica sobre ele e a sua mulher eram mentirosos, sinistros ou inventados, e Kate McCann disse ter-se sentido “violada”pela publicação do seu diário.

O testemunho do casal foi descrito por The Guardian como o apelo “mais poderoso até agora” a favor de uma regulação mais forte.

O facto de uma boa parte dos artigos em questão terem sido copia dos da imprensa portuguesa pode dar que pensar.

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 30/07

No Brasil, é tempo de voar!”

Por Juliana Iorio, Jornalista Freelancer para o Portal UOL e Revista Persona Mulher

Foi-se o tempo em que viajar de avião era “coisa para ricos!” Hoje em dia qualquer pessoa, pelo menos no Brasil, pode viajar de avião!

O aumento das companhias aéreas “low cost”, a diminuição dos preços das passagens, provocada pela concorrência, aliada a um incremento do poder aquisitivo, tem feito com que, aqueles que até então só podiam viajar de autocarro, hoje tenham a oportunidade de viajar de avião.

Observa-se por todo o país os aeroportos lotados, e não é só por causa das férias! Mulheres-a-dias, aposentados, que nunca haviam viajado de avião, hoje podem fazê-lo graças às tarifas promocionais, ao pagamento parcelado das passagens e à subida do poder de compra.

Só nos cinco primeiros meses deste ano, o número de passageiros que viajou de avião dentro do Brasil aumentou 20% em relação ao mesmo período do ano passado. Foi o maior crescimento registado no mundo, de acordo com informações divulgadas pela comunicação social brasileira. Uma busca rápida pela Internet revela que já existem até guias on-line para quem viaja de avião pela primeira vez no Brasil!

Nos últimos dois anos, o número daqueles que escolheram o avião para viajar pelo Brasil aumentou 39,4%, ou seja, subiu para 139,4 milhões e, em contrapartida, o número de passageiros que viajaram de autocarro, mais de 75 quilómetros, caiu 9% (de quase 54 milhões em 2008, para 49 milhões em 2010), também segundo informação divulgada pela comunicação social.

Se por um lado, hoje podemos encontrar uma grande gama de companhias aéreas de baixo custo no Brasil (as mais conhecidas são a “Gol” – que acaba de adquirir a “Webjet” – e a “Azul”), que se “digladiam” em buscas de clientes; por outro lado, estes quando chegam aos aeroportos, muitas vezes deparam-se com a falta de informação e com serviços que lhes podem custar o dobro do preço. A alimentação nos aeroportos, por exemplo, é um dos serviços onde a falta de concorrência faz manter a alta nos preços.

As redes hoteleiras no Brasil, por sua vez, não têm conseguido atender a demanda. Actualmente, conseguir um quarto de hotel na cidade de São Paulo não é uma tarefa nada fácil! Apesar dos investimentos no sector, que se têm verificado em todo país, sobretudo por grupos estrangeiros, estes ainda são deficientes em vista da procura que se tem sentido. Se hoje, e apesar dos altos preços praticados, já é difícil conseguir um quarto de hotel em São Paulo, como será quando o país sediar o Mundial de 2016?

Transportes Terrestres tentam “driblar” a perda de clientes

Numa tentativa de driblar a perda de clientes e estimular o uso do transporte terrestre, as empresas de autocarro no Brasil têm introduzido algumas inovações. Para além dos bilhetes poderem ser pagos em até seis vezes, já existem programas de “milhas” e até tarifas diferenciadas de acordo com as poltronas! Além disso, os descontos nos preços dos bilhetes podem chegar a 50%.

Capacidades dos aeroportos superam preocupação com tráfego aéreo

O tráfego aéreo tem aumentado no Brasil, e com ele o número de acidentes aéreos. Segundo a comunicação social, o número de mortos em acidentes aéreos nos seis primeiros meses de 2011 superou o índice de todo o ano anterior. No entanto, devido ao Mundial de 2016, questões como a capacidade dos aeroportos e os meios de transportes para deslocações dentro do Brasil, têm sido apontadas como as mais críticas e prioritárias.

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 18/06

Falta de bom senso político em Espanha

Por Belén Rodrigo, correspondente do ‘ABC’

Quatro semanas depois das eleições municipais e regionais em Espanha, o panorama político não está a passar pelos seus melhores dias. Algumas comunidades continuam sem acordo para ter um Governo estável e os “indignados” levam mais de um mês a dar que falar. Já não se limitaram a protestar e nos últimos dias aconteceram actos de violência. O PSOE está preocupado com as próximas eleições que não quer antecipar e por momentos parece que esquece o dia-a-dia de um pais que precisa de ordem.

Enquanto algumas comunidades e câmaras dão posse ao presidente, outras continuam na luta para chegar ao entendimento. Ganhar as eleições não chega para presidir a um Parlamento porque senão se tem maioria absoluta e existe acordo entre outros partidos da oposição, o Governo fica nas mãos dos “perdedores”. Na Extremadura, por exemplo, onde ganhou o PP, um pacto entre PSOE e IU(Esquerda Unida) pode colocar de novo aos socialistas no poder. Mas parece que o PP e a IU estão a aproximar posições e poderia dar numa coligação entre duas forças políticas tão diferentes ideologicamente. As Astúrias também estão a dar problemas porque o vencedor Foro de Asturias, como ex-popular Álvarez-Cascos à frente, não se entende como PP e já se fala de um Governo PP/PSOE. A situação económica de Espanha não dá margem para se perder tempo com brigas internas. O bom-senso devia imperar mas há tempos que deixou de existir entre os políticos , ou pelo menos é isso o que transmitem aos cidadãos.

Mas o que está a dar que falar é o movimento “15M”. Na quarta feira os deputados catalães tiveram de entrar no Parlamento de helicóptero, porque o edifício estava tomado pelos “indignados”. Fica assim uma triste imagem da Democracia espanhola .Até agora todos olhavam com simpatia para estes jovens porque muitas das suas reivindicações (algumas utópicas) faziam sentido, todos queremos viver num mundo melhor demais justo. Passamos dias e vemos sinais de violência, a situação está a fugir das mãos dos responsáveis políticos. Zapatero diz “não” quando perguntam se está preocupado com os indignados mas depois a Moncloa teve de rectificar. É evidente que o movimento está dividido, à deriva  após um mês de protestos, e cresce a agressividade.

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 11/06

Santo António da colina da CruzVermelha

Por DejanStankovic,‘freelance’

Santo António de Lisboa é um santo católico romano que nunca pôs os pés numa Belgrado predominantemente ortodoxa, mas deixou uma marca distintiva na capital da Sérvia. É o santo padroeiro(em português “orago”) de uma bela igreja que enfeita a paisagem da cidade enquanto o seu culto se espalhou muito para além da minoria católica. Existe ainda uma lista de pequenos milagres que Santo António terá realizado nesta parte do mundo.

A Igreja de Santo António foi construída em1931 por ocasião dos 700 anos da morte do santo. Desde 1962,quando a sua torre de 52 metros ficou finalmente pronta, este edifício de tijolo vermelho, elegante e moderno, tornou-se numa imagem de marca da arquitectura da cidade.

E é um símbolo para todos os habitantes de Belgrado. Além dos católicos, há também visitantes de outras fés e turistas que se deslocam à igreja situada no bairro de Belgrado conhecido como Colina da Cruz Vermelha.

Ao longo dos anos, devido à cedência do solo, a torre inclinou-se 45 centímetros para um dos lados. A inclinação, semelhante à da Torre de Pisa, é bem visível, mas por milagre a torre continua de pé.

É ali que fica a sede dos franciscanos da Bósnia, cujo mosteiro fica situado numa rua residencial sossegada. As suas portas estão abertas durante todo o dia tanto para os fiéis como para os curiosos e até para os meninos que gostam de jogar futebol no seu jardim. É um facto comprovado que os frades sempre se mostraram compreensivos com as brincadeiras das crianças da vizinhança.

A igreja sobreviveu à II Guerra Mundial intacta, apesar de a área circundante ter sofrido da nos graves, tanto por causa dos bombardeamentos nazis como dos aliados. Para a população local, tratou-se de um milagre.

Durante o regime comunista do pós-guerra, quando irà igreja não era bem-visto, voltou a acontecer um milagre. Os frades de Santo António compraram grandes órgãos, os melhores da capital da então Jugoslávia. E a igreja acabou por se tornar num palco para concertos de música erudita e espiritual.

Durante a década de 1990, quando sérvios, croatas, bósniose eslovenos se defrontaram em guerras sangrentas, os seus compatriotas juntavam-se em paz neste templo ecuménico. Talvez tenha sido o maior milagre.

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 28/05

O discurso único de Obama em Westminster

Por Alison Roberts, jornalista ‘freelance’ britânica

A visita de Obama à Irlanda serviu para piscar o olho aos 40 milhões de eleitores americanos de ascendência irlandesa, tal como fizéramos seus antecessores, e para estabelecer uma ligação pessoal com a Europa no início de um périplo de seis dias. Como esperado, foi uma visita divertida, gerando imagens de Obama no pub da aldeia do seu antepassado, de Guinness na mão, que valem à cervejeira e ao país milhões de euros em publicidade.

A visita ao Reino Unido foi bem mais formal. Como de costume, os média britânicos focavam o estado da “Relação especial ”na área de segurança. Ainda mais comum presidente americano cujos sentimentos perante o Reino Unido estão supostamente envenenados pelo facto de o seu pai ser do Quénia, cujo povo sofreu abusos durante o colonialismo britânico.

Mas o próprio Obama utilizou esta ligação colonial no seu discurso, citando o facto de “o neto de um cozinheiro queniano no exercito britânico” hoje ser presidente, e a presença na assistência de “filhos e filhas de ex-colónias britânicas” membros do Parlamento britânico, como exemplos da força da diversidade nas sociedades dos dois países. Foi o único momento do discurso solene interrompido por aplausos. A sessão teve Lugar na parte mais antiga do complexo parlamentar de Londres, Westminster Hall, um espaço do século .XI  com estatuto mítico na história britânica. No seu discurso Obama citou a Magna Carta de 1215comoabasecomumdos sistemas dos dois países, na limitação do poder do Estado.

Foi depois disso que Westminster Hall se tornou a casa dos tribunais mais importantes da altura. Mas o evento mais marcante que ali teve lugar foi o julgamento por tirania e traição de Carlos I, em 1649:a primeira vez na história europeia que um monarca era condenado à morte. E uma marca importante para estabelecer os limites do poder da coroa.

Apesar da honra que constitui o convite para falar neste sítio – nunca antes concedida a um presidente – como sempre ficavam dúvidas do lado britânico sobre a relação. Foi um colunista com uma perspectiva singular–Roger Cohen do New York Times, americano nascido e crescido em Inglaterra– que resumiu a força da referência de Obama ao avô: “A Mancha ainda é muito mais larga que o Atlântico.”

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 21/05

Os indignados del sol

Por Belén Rodrigo, correspondente ABC

Na última semana da campanha para as eleições municipais e regionais de Espanha, o movimento 15-M é o grande protagonista. Desde o passado domingo, estudantes, reformados, desempregados, trabalhadores em condições precárias estão acampados na emblemática Puerta del Sol . Pessoas muito diferentes com um mesmo grito: a sua indignação pela situação de Espanha. Queixam-se do sistema político, económico e social do seu país onde têm cada vez menos oportunidades para viver dignamente. Depois de mobilizações por todo o país, os olhares estão concentrados na praça madrilena.

Quem são os indignados? “É um movimento imparável que vai trazer mudanças profundas”, explicam os porta-vozes. Os rostos deste movimento mudam porque ninguém quer o protagonismo. A sua origem está nas redes sociais, e depois os meios de comunicação tradicionais estão a ajudar à sua divulgação. Várias plataformas estão por detrás desta iniciativa promovida nomeadamente por Democracia Real Ya. Mas são muitas as perguntas que surgem quando se procura perceber o que está a acontecer. Os partidos políticos tentam analisar o significado deste protesto sobre o qual cada um tem a sua teoria. Dentro do Partido Popular, alguns acusam o PSOE de estar por detrás do 15-M, e a Esquerda Unida diz que são parte do seu partido e pedem-lhes o voto. A presidente da Comunidade de Madrid, Esperanza Aguirre, teme que a esquerda manipule este movimento, enquanto o ex-primeiro-ministro Felipe González fala do espírito espontâneo das revoltas árabes. Entre as suas propostas está a eliminação de privilégios na classe política, mais liberdade e uma democracia participativa. Exigem uma redução do desemprego e consideram necessária a aplicação de medidas como a redução da jornada laboral ou a conciliação.

O que realmente preocupa agora a classe política é saber quem o 15-M vai prejudicar ou beneficiar mais. Alguns analistas acham que nenhum partido vai ficar com os votos dos manifestantes e, em geral, consideram que o PSOE pode ser mais prejudicado por ser o partido do poder. Não há muitos manifestantes do PP e sim muitos do PSOE que estão a ser muito críticos com o Governo.

Outra das incógnitas é saber o que vai acontecer no dia depois das eleições com este movimento. Eles garantem que não há volta atrás, mas parece difícil que venham a ter sucesso quando não existir um objectivo concreto e palpável. Querem mudar o mundo, mas não sabem como. É um objectivo difícil, mas não impossível.

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 14/05

Jornalistas querem fazer perguntas

Por Begoña Iñiguez, correspondente da Rádio Cadena Cope

Em Espanha, já em plena campanha eleitoral paras as eleições municipais e autonómicas de 22 de Maio, durante apenas 12 dias, quase seis mil jornalistas em actividade na maioria das televisões, rádios e jornais do país assinaram um manifesto contra as conferências de imprensa sem perguntas.

O chefe do Governo, José Luis Rodríguez Zapatero, vários membros do Executivo socialista e o líder da oposição, Mariano Rajoy, do Partido Popular, tornaram habitual esta prática, para desespero dos profissionais da informação. O documento foi subscrito, entre outras entidades, pela Federação das Associações de Jornalistas de Espanha, pela Associação da Imprensa de Madrid e pelo Conselho dos Serviços Informativos da Televisão Pública Espanhola.

A 3 de Maio, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, Elsa González, presidente da FAPE (a organização profissional de jornalistas mais relevante de Espanha), pediu aos poderes públicos que abandonem “toda a intenção de limitar o exercício do jornalismo” e incentivou os editores dos meios de informação a não enviar os seus jornalistas a conferências de imprensa, ou aparições públicas, sem direito a perguntas. Na sua opinião, esta actuação dos políticos constitui “um dos atropelos mais prejudiciais” para a liberdade de imprensa. “Se cedermos, acabaremos por prejudicar a liberdade de informação”, afirmou.

O protesto chegou também com força às redes sociais, como o Twitter, onde se criou um movimento contra as declarações de políticos sem direito a perguntas. Apesar de o mais importante, na opinião da presidente da FAPE, é que isto “tenha sido um abalo para toda a classe política e para os próprios jornalistas”. As últimas aparições dos políticos espanhóis, de qualquer cor política, confirmam que estão a ponderar melhor fazer declarações públicas não sujeitas a perguntas dos jornalistas.

Elsa González assinala também que “a FAPE não tem conhecimento de que nas últimas semanas se tenha convocado alguma conferência de imprensa em Espanha sem perguntas”. E acrescenta que “com estas iniciativas os jornalistas sentem-se mais fortes e protegidos para fazer o seu trabalho”. Todas as associações de jornalistas espanholas aderiram ao protesto.

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 07/05

Os benefícios do lixo

Por Anete Costa Ferreira, jornalista da revista “Para+”

O acumular do lixo nas cidades brasileiras despertou a atenção dos autarcas que criaram programas para tornar as urbes limpas e saudáveis. Apresentaram alternativas aos moradores que fizessem uma recolha selectiva poderiam trocar o lixo por sacos cheios de comidas, material escolar ou bilhetes de transportes públicos. Resultado: todas as ruas ficaram limpas.

Para consciencializar o trabalhador do mar fizeram um acordo com os pescadores, dizendo que lhes pertencia todo o peixe pescado. Nos dias em que a pesca não estivesse boa eles recolheriam o lixo e a Câmara compraria o considerado útil. A resposta é que as baías estão limpas, possibilitando o aumento de cardumes.

Os papéis, plásticos, vidros, metais e lixo orgânico, previamente separados, são vendidos às indústrias de reciclagem ou a sucateiros. A recolha é feita a domicílio, em pontos de entrega voluntária, em postos de troca e por catadores.

As indústrias de reciclagem produzem papéis, folhas de alumínio, lâminas de borracha, fibra e energia eléctrica, gerada com a combustão. Experiência única no Brasil e a transformação de lixo em blocos de cimento para a construção de casas populares e crédito de carbono.

Na reciclagem de latas, o Brasil é campeão, recolhendo anualmente 160 mil toneladas. O plástico Pet (Polietileno Tereftalato, versátil, barato e farto beneficia desde o grande fabricante ao empreendedor. Sua reciclagem favorece o ambiente pois as garrafas Pet Levam cem anos a decompor-se.

A recolha do lixo originou a criação de cooperativas e associações para orientarem os catadores que trabalham na catalogação de papéis, ferro, alumínio, esferovite e latas, material depois reutilizado como fonte de energia.

A Lei 12305/2010, obriga as empresas a montar um esquema para recolher e dar destino correcto ao lixo, por actividades. É um dos maiores desafios actuais com centenas de organizações que têm criado projectos que aliam sustentabilidade económica e social.

O Governo esclarece a população sobre os benefícios da reciclagem mostrando que contribuir para reduzir a poluição do solo, água e ar, melhorar a produção de componentes orgânicos e prolongar a vida de aterros sanitários, depende da limpeza da cidade.

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 30/04

Em busca do “Sonho Brasileiro”

Por Juliana Iorio, jornalista “freelance”

Todo português tem um amigo, ou conhece alguém, que já emigrou. E ultimamente um dos países mais cotados pela mais recente vaga de emigrantes portugueses é o Brasil.

A crise económica que afecta Portugal desde 2008 tem feito com que muitos portugueses emigrem em busca de melhores condições de vida. A facilidade da língua e o histórico migratório que Portugal tem com o Brasil, para além do crescimento económico deste país nos últimos anos, são alguns dos motivos que fazem com que muitos escolham começar uma “vida nova” em terras brasileiras.

Porém, ao contrário do que aconteceu no passado, quando os portugueses que chegavam ao Brasil tinham pouca, ou nenhuma, escolaridade, actualmente os portugueses que emigram possuem uma sólida formação académica. Trata-se de uma mão-de-obra especializada, cada vez mais necessária num país em franco desenvolvimento.

Em 2010, cerca de 1500 vistos de trabalho foram concedidos à cidadãos de nacionalidade portuguesa. Só nos primeiros três meses deste ano, mais 500 vistos já foram expedidos. São engenheiros, arquitectos e técnicos de plataforma de petróleo que representam a maior parte dos “cérebros” que têm saído de Portugal rumo ao Brasil. Trata-se de uma migração feita de uma forma mais ordenada, onde estes profissionais emigram já com trabalho garantido, ou para estudar, e, portanto, é um tipo de migração que foge aos padrões (onde, normalmente, pessoas com menos qualificação, e muitas vezes sem visto, saem de países menos desenvolvidos com destino aos países mais desenvolvidos).

Com trabalho garantido e salários “aquecidos”, a tendência é de que, pelo menos nos próximos anos, o Brasil continue a estar na rota dos portugueses que pretendam emigrar. Porém, importa salientar que nem tudo são flores… Para além das grandes diferenças culturais e do afastamento de familiares e amigos a que a imigração obriga, os portugueses têm encontrado grandes dificuldades para terem os seus diplomas reconhecidos no Brasil. Esta burocracia, que aliás o Brasil herdou de Portugal, pode constituir “um entrave” à entrada dos profissionais portugueses neste país. De qualquer forma, actualmente, nada é suficientemente forte para demover os portugueses que estão em busca do “sonho brasileiro”.

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 23/04

Um teste difícil para o Presidente Sarkozy

Por Marie-Line Darcy, jornalista “freelancer”

Até o momento, 12 personalidades anunciaram a candidatura à eleição presidencial francesa de 2012 ou estão em via de o fazer. A curto prazo, este número pode aumentar para 20 e depois diminuir de novo, pois o Partido Socialista deverá organizar eleições primárias para designar o seu candidato ao Palácio do Eliseu, enquanto verdes e comunistas estarão provavelmente representados apenas por uma personalidade nesta corrida presidencial. Esta repartição de candidaturas acaba por servir os interesses da extrema-direita. Uma sondagem publicada esta semana revela que Marine Le Pen, presidente da Frente Nacional, poderá ir à segunda volta das presidenciais, defrontando um candidato socialista. A concretizar-se, este cenário recorda o ocorrido em 2002, quando o pai de Marine, Jean-Marie Le Pen, ultrapassou o candidato socialista na primeira volta, obrigando toda a esquerda a votar Jacques Chirac no segundo escrutínio. Chirac venceu com 82%, uma percentagem “à coreana”.

Para 2012, as hipóteses da presidente da Frente Nacional estão a ser levadas muito a sério. Esta advogada de 42 anos, loura de olhos claros, aposta na sua feminilidade para dinamizar o partido, definido por ela próprio como “da direita nacional, populista e soberanista”.

Aparência de veludo, vontade de ferro: Madame Le Pen procura por todos os meios exercer a sua autoridade interna. Excluiu um candidato da FN por ter feito a saudação nazi e alertou os militantes para não cederem a nenhuma provocação no tradicional desfile frentista do 1º de Maio, consagrado a Joana d` Arc. Mas ninguém tem dúvidas: Marine possui o mesmo ideário extremista que o seu pai – um pouco menos expansiva, um pouco mais manipuladora que ele. Face ao resultado da sondagem – e aos 25% de votos atribuídos à FN – renova-se o debate sobre o voto útil logo à primeira volta, a fim de evitar a dispersão dos eleitores. Nicolas Sarkozy, o Presidente que ainda não se assumiu como recandidato, já se encontra em campanha, entusiasta e motivado, procurando ignorar a queda das intenções de voto que lhe são atribuídas nesta sondagem. Mas com a identificação do perigo Marine Le Pen, as primárias deixaram de ser um tema tabu. A sondagem revela que Sarkozy pode vir a ser pura e simplesmente afastado logo à primeira volta.

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 16/04

Aos 100 dias Dilma é uma gestora

Por Jair Rattner, correspondente  do O Estado de São Paulo

No último domingo a Presidenta do Brasil, Dilma Rousseff completou 100 dias de governo, com a difícil tarefa de substituir o líder de popularidade, Lula, que concluiu o segundo mandato com uma aprovação superior a 80%. A marca da Presidenta, que chegou ao palácio presidencial na primeira eleição que disputou, foi um estilo de gestora, voltado mais para o governo do que para o exterior.

Começou tendo que disciplinar a base de apoio: logo no terceiro dia, diante da briga entre os 16 partidos que constituem a base de apoio do Governo no Congresso, mandou congelar as nomeações para o segundo escalão do Governo, evitando que a disputa caísse na rua. No dia seguinte, mostrou mão firme com os militares, depois de o responsável pelo Gabinete de Segurança Institucional, general José Elito, ter dito ser contra a comissão que apurava as denúncias de abusos dos direitos humanos na ditadura – o militar esteve a um passo de ser demitido.

Apesar de ter sido eleita graças ao apoio de Lula, várias das suas decisões foram contrárias à do ex-presidente, especialmente na política externa. A primeira vez foi o fim do apoio incondicional ao regime cubano, afirmando no 30º dia de Governo que “as falhas do Governo cubano serão criticadas”. A 22 de Março, modificou a política de não ingerência, ao defender que o líder líbio, Kadhafi, deveria sair do poder. Mas a grande mudança ocorreu dois dias depois, quando o Brasil votou a favor do envio de um relator para avaliar os direitos humanos no Irão. Comentando a nova política, Lula escolheu não antagonizar a sucessora: “Não há divergências. E, se houver, quem está certo é ela”, disse.

Para o editor adjunto de Política do O estado de S. Paulo, Yuri Pitta, a grande marca que ela deixou nos primeiros cem dias de governo foi o estilo. “Ela tem uma imagem de trabalho e de pulso firme. Quando um homem tem essa postura, é considerado normal. O pulso firme dela sobressai, não é usual”.

Apesar da forte aprovação – só 12% consideram o seu governo mau e 6% estão indecisos- para Yuri ainda é cedo para falar em reeleição: “É muito precipitado fazer um cenário para 2014. Há dificuldades na economia e tudo vai depender da Copa do Mundo, que pode ser a glória ou a desgraça dos governantes de plantão”.

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 09/04

Zapatero vai-se embora mas ainda fica

Por Belén Rodrigo Correspondente ABC

Anunciada a sua decisão de não se recandidatar em 2012, José Luis Rodríguez Zapatero enfrenta o ano mais difícil do seu Governo. O desemprego atingiu números recorde, a oposição pede a sua saída imediata, o seu partido está preocupado com as eleições autárquicas e autonómicas e procura novo líder. Como vai governar Zapatero nos próximos meses?

O cenário não é muito agradável para o presidente do Governo. Com as sondagens contra e as eleições tão próximas, o PSOE começou a ficar nervoso e foram várias as vozes que pediram a Zapatero para revelar o seu futuro político. Ele escolheu o Comité Federal do PSOE, órgão máximo do partido, para anunciar o já esperado e fechou assim quase ano e meio de debate à sua volta.

O anúncio chega num momento decisivo para os socialistas. Zapatero considera importante que o novo candidato tenha tempo para criar um projecto político e explicá-lo mas para que tal aconteça ainda falta resolver alguns problemas. O primeiro são as eleições de 22 de Maio, onde poderemos saber se o anúncio do primeiro-ministro serviu para dar uma ajuda ao PSOE ou se veio agravar a situação. O segundo é como escolher o sucessor de Zapatero porque nem todos são partidários das primárias. Parece evidente que os ministros Rubalcaba e Chacón são os que tem mais seguidores e provavelmente a luta será entre os dois.

Não vai ser fácil para Zapatero governar enquanto se fala mais do seu sucessor do que dele. Menos ainda quando a oposição pede para ele sair já e não esperar até o fim da legislatura. E o mais problemático é a situação do país, nomeadamente com os números do desemprego: 4,3 milhões de pessoas à procura de trabalho,o número mais elevado dos últimos 15 anos, assusta até o mais optimista.

O anúncio do Zapatero não resolveu a crise do PSOE porque ele quer continuar a controlar o partido enquanto secretáriio-geral do partido, cargo que não vai abandonar. O primeiro-ministro consegue manter suspense entre os seus e deixa uma mensagem para a oposição: ainda estou cá, vou-me embora mas por agora fico. E falta saber como vão actuar os habituais “sócios” do Governo na aprovação do Orçamento (PNV y Coalición Canaria).

A verdade é que os espanhóis não querem saber de problemas de partidos e sim de soluções para o país A situação está cada vez pior e é o momento de actuar pelo bem nacional e deixar de lado os interesses partidários.

Data das primárias

A opção mais provável para escolher o candidato socialista vai ser as primárias que ainda não têm data definida. Antes ou depois do Verão? Zapatero quer Carme Chacón na Moncloa mas Rubalcaba parece o sucessor natural.

A vez do Partido Popular

No dia do anúncio, Zapatero ironizou com o principal partido da oposição que a partir de agora “deve trabalhar a sério porque já não me pode criticar”. Verdade é que o partido de Rajoy deve estar muito atento se quer voltar ao poder.

Publicado na edição impressa do dia 09 de Abril de 2011

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 02/04

Brasil – Na rota dos imigrantes africanos

por Juliana Iorio, Jornalista Freelancer

Muito se tem publicitado no Brasil que este país entrou na rota dos imigrantes africanos.

O Brasil, um país cuja génese da sua população está na “mistura de raças”, dentro das quais destacou-se, desde os primórdios da sua história, a raça negra dos escravos oriundos de África, agora é visto como o país que acolhe muitos africanos que fogem da guerra e da fome, e que vão em busca de melhores oportunidades de estudo e de trabalho.

Actualmente, 65% dos refugiados no Brasil são africanos e já existe, inclusive, um programa específico de distribuição de alimentos na cidade do Rio de Janeiro, que beneficia refugiados e imigrantes angolanos e congoleses. Trata-se de um programa do Governo Federal que compra produtos (frutas, verduras e ocasionalmente peixes) de pequenos produtores para doar às comunidades necessitadas. Por isso, apesar do continente europeu ainda ser o principal destino dos refugiados africanos, o Brasil também começa a estar na rota de quem quer deixar África. Hoje, já é possível encontrar nos “morros” do Rio de Janeiro muitas comunidades africanas.

Conta a história que foi no final da década de 70 que chegaram ao Brasil os primeiros imigrantes provenientes do Congo. Entretanto, têm-se observado que nos últimos dez anos esta imigração tem vindo a intensificar-se. Muitos destes congoleses saíram de áreas consideradas nobres em seu país, possuem formação universitária, e ainda assim têm encontrado dificuldades em conseguirem trabalho no Brasil (Será que estamos diante de um “racismo não declarado”?). Por este motivo, estes imigrantes vêm-se obrigados a viverem nos chamados “bairros populares” e, apesar das dificuldades encontradas em seu país de origem, alguns já ponderam regressar.

Mas o estudo ainda é um dos principais motivos que leva muitos africanos, provenientes sobretudo de Cabo Verde, ao Brasil. Até mesmo o actual primeiro-ministro deste país (José Maria Pereira Neves) licenciou-se pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo. Atraídos por programas de intercâmbio em universidades públicas e privadas, actualmente cinco mil cabo-verdianos vivem neste país. Destes, dois mil são estudantes universitários e a maioria deve regressar ao seu país de origem quando concluir os estudos. Ainda assim, há sempre quem opte por permanecer no país, pois, mesmo que exista um “racismo não declarado”, neste momento há muitas oportunidades de trabalho em terras brasileiras.

No mapa mundial das migrações

Não só os imigrantes africanos estão a “descobrir” o Brasil, mas é cada vez maior o número de pessoas que procuram este país em busca de oportunidades. Os números mais recentes do Ministério do Trabalho Brasileiro apontam, nos nove primeiros meses de 2010, para um aumento de 20% na concessão de registo de trabalho para estrangeiros, quando comparado ao mesmo período de 2009.

No mapa mundial dos investimentos

O Brasil não só se tornou um país de imigrantes, como também está entre os maiores destinos de investimento estrangeiro no mundo. De acordo com a Organização das Nações Unidas, em 2010 houve um aumento de 16% nos investimentos feitos por empreendedores estrangeiros em terras brasileiras, que estão a aproveitar a estabilidade política e económica deste país.

Este artigo foi publicado na edição imprensa do dia 02 de Abril de 2011.

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 20/03

O mês extraordinário de David Cameron

Por Alison Roberts, jornalista “freelance” britânica

A votação pelo conselho de Segurança da ONU duma resolução forte contra a Líbia marcou não só o fim de um período de vacilação por parte da administração Obama, mas também o culminar de um mês extraordinário para o primeiro-ministro britânico. Enquanto líder da oposição, David Cameron atacou a doutrina de intervencionismo liberal de Tony Blair – que conseguiu resultados no Kosovo em 1999 mas teve ramificações devastadoras no Iraque. Cameron chegou a dizer que, sob os trabalhistas, a política externa era marcada “pela ausência de duas qualidades que (a) deveriam sempre condicionar: humildade e paciência.

Mas Cameron destacou-se como o defensor mais acérrimo da imposição imediata da interdição aérea na Líbia.

Há um mês, durante uma visita a países árabes, ainda insistia que não se pode “deixar cair a democracia de um avião a 40 000 pés”. Agora, com o êxito na ONU, o mais provável é que envolverá o seu país numa tentativa de utilizar aviões para empatar as forças do Kadhafi, para apoiar uma revolta que se quer democrática.

O périplo de Cameron pelos países árabes parecia mostrar visão, após um período de cautela europeia. O seu chefe da diplomacia já foi a primeira figura europeia de destaque a visitar Tunísia depois da revolução, numa “tournée de reforma” enquanto a política da França ainda estava em ruínas devido às ligações da sua ministra com o antigo regime tunisino.

A viagem posterior de Cameron começou no Egipto (onde visitou a Praça Tahrir), mas rapidamente se percebeu que tinha sido planeada havia algum tempo, com objectivos diferentes. Ironicamente, foi cancelamento da venda de armas ao Bahrein que focou a atenção no facto de a delegação incluir fabricantes destas.

Cameron confessou no Koweit que o Ocidente se enganou no apoio a regimes ditatoriais. Declarando que “a História está a varrer a vossa região”, prometeu ser mais crítico quanto aos direitos humanos. Em resposta a um jornalista local negou que padrões diferentes sejam aplicados a países diferentes. Mas, sobre a reforma na Arábia Saudita, evitou responder.

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 05/03

O travão do Governo espanhol

por Belén Rodrigo, Correspondente jornal ABC

“A 110 km por hora é difícil manter-se acordado”. É a reacção de Fernando Alonso a nova medida do Governo espanhol de diminuir a velocidade máxima em auto-estradas e circulares das grandes cidades para poupar no consumo de combustíveis no país. Mas ne sequer é preciso ser campeão de Fórmula 1 nem um apaixonado pela velocidade para perceber que esta sorprendente noticia de descer dos 120 Km/h actuais para os 110 Km/h pode resultar perigosa para os conductores. Ainda por cima, com os potentes carros que existem, os espanhóis vamos ter que viajar com o pé no travão para não ser multados.

Trata-se de uma medida transitória, em vigor a partir do 7 de Março, que será mantida até à normalização do preço do petróleo. Mas pensamos todos, não há outra forma de poupar combustível? Por quê mais uma vez o espanhol tem que ser castigado? Crise, desemprego, proibido de fumar, subida dos preços, inclusive o tabaco…. e agora o limite da velocidade. Detesto o tabaco mas até tenho pena da persecução que tem os fumadores em Espanha desde Janeiro e há partes da nova lei anti-tabaco que roçam o ridículo. E agora também nos é proibido dirigir a uma velocidade moderada, semelhante ao do resto de paises europeus.

Zapatero e a sua equipa prentedem poupar 18 milhões de barriles de petróleo por ano, quer dizer, 1400 milhões de euros menos. Mas deve afrontar as despesas de 250 mil euros para os adesivos com o novo limite de velocidade em mais de seis mil sinais existentes nas autoestratadas e autovias de Espanha. O Governo calcula que se esta medida é aplicada até o fim do ano o Estado vai deixar de receber mais de 600 milhões de euros relativos aos impostos do combustível que não vai ser vendido. E essa diferença de dinheiro, vai ser recuperada com o aumento de multas? Resulta difícil acreditar que em tempo de crise o Estado admita receber menos dinheiro por isso estamos todos a espera de um maior control de radares.

As reacções à medida são muitas, e até há pessoas que a recebem com bons olhos. Entre elas Associações de Vítimas de Accidentes rodoviarios (no 2010 faleceram 1700 pessoas). O Partido Popular tem sido o mais crítico com a medida do Governo e a conisdera “soviética”, “extrema” e um “disparate”.

E agora, quê medida vem a seguir?

Poupança mínima

Já são muitos os que experimentaram fazer as viagens com as novas medidas para confirmar que a poupança é mínima. Um jornalista galego comprovou que viajar desde a Galiza até Madrid pela A-6 a 110 km/hora permite uma poupança de 1,8 euros e um aumento da duração da viagem de uma hora. Compensa?

Novos sinais

Como em tudo há sempre alguém que fica contente com a medida. Neste caso trata-se de uma empresa de Alicante que fabrica lâminas com ímã para colocar por cima das actuais sinais. Esta empresa, fundada em 2009 por tres desempregados, já recebeu mais de 500 encomendas. O preço de cada lâmina é de aproximadamente 50 euros.

Este artigo foi publicado na edição imprensa do dia 05 de Março de 2011.

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 19/02

Quem tem medo de Strauss-Kahn?

Por Maire-Line Darcy, correspondente dos media francófonos

DSK. É assim que todos chamam a Dominique Strauss-Kahn em França. As três letras do nome do patrão do FMI fizeram correr muita tinta nos últimos dias. Primeiro devido à polémica lançada por Christian Jacob, que dirige o grupo da UMP (direita, no poder) na Assembleia Nacional. O deputado declarou, num programa de rádio judia em Paris, que DSK “não correspondia à imagem da França, da França rural, mas sim à da terra e dos territórios”.

Uma frase curta que gerou uma vaga de protestos por parte do Partido Socialista, a que pertence Strauss-Kahn. Era o que dizia durante o Governo de Vichy (governo colaboracionista do marechal Pétain durante a II Guerra Mundial), disse alguns, enquanto outros iam até ao caso Dreyfus para denunciar o anti-semitismo das palavras.

Em vez de minimizar o caso, a direita parece decidida a insistir: o ministro dos Assuntos Europeus, Laurent Wauquiez, preferiu comparar o patrão do FMI a um buda, longe das preocupações do francês médio. Esta polémica mais ou menos orquestrada surge depois de outra produzida por uma frase da companheira de DSK, Anne Sinclair. Ao declarar que não queria ver o marido apresentar-se a um segundo mandato no FMI, Sinclair, jornalista experiente que sabe o peso das palavras, alimentou assim a especulação.

Strauss-Kahn vai ou não apresentar-se à primárias socialistas de Outubro? DSK é o mais popular nas sondagens, e, apesar de a sua popularidade estar a cair, surge como o melhor candidato face a Nicolas Sarkozy, numa eventual segunda volta. Com DSK em Paris este fim-de-semana para uma reunião do G20, OS MEDIA ESTÃO ATENTOS. Os analistas duvidam que este quebre o silêncio devido às reuniões do FMI, como no G8 em Maio. Mas mesmo em silêncio DSK tem poder: odiado pela esquerda da esquerda que o considera demasiado liberal, é também criticado pela direita, que o receia pelas mesmas razões.

Quanto ao Partido Socialista, dirigido por Martine Aubry, não sabe bem para que lado se virar. E a imagem de homem tranquilo que caracteriza DSK pode ser enganadora: a 15 meses das eleições presidenciais francesas, Strauss-Kahn é o dono do jogo e já lançou a pré-campanha.

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 12/02

A tragédia e a epifania do Carnaval carioca

Por Renato Mendes, jornalista “freelance” brasileiro

O antropólogo social carioca, Roberto Da Matta, define o Carnaval do Rio de Janeiro como “ `liberdade´ e como possibilidade de viver uma ausência fantasiosa e utópica de miséria, trabalho, obrigações, pecado e deveres. Numa palavra, trata-se de um momento em que se pode deixar de viver a vida como fardo e castigo. É, no fundo, a oportunidade de fazer tudo ao contrário: viver e ter uma experiência do mundo como excesso – mas agora como excesso de prazer, de riqueza (ou de `luxo, como se fala no Rio de Janeiro), de alegria, de riso; de prazer sensual que fica – finalmente- ao alcance de todos”.

Os trabalhos para a grande festa do Carnaval carioca não cessaram, mesmo após a tragédia que matou perto de 900 pessoas na região serrana do Rio, em decorrência das fortes chuvas e deslizamentos de terra de Janeiro. Desde segunda-feira, um incêndio, que consumiu parte da Cidade do Samba, um complexo que abriga os barracões das doze escolas de samba do Grupo Especial do Carnaval.

Os prejuízos causados pelo fogo foram estimados em 20 milhões de reais (8,8 milhões de euros). Dezenas de carros alegóricos, milhares de fantasias, mascaras e adereços, feitas de materiais altamente inflamáveis arderam. Os barracões de quatro grandes escolas foram perdidos, por conta disto, nenhuma delas será rebaixada para divisões inferiores.

Recursos da ordem de três milhões de reais (1,31 milhões de euros) para ajuda às escolas de samba afectadas chegaram da iniciativa privada. Relatos falam em espírito de entreajuda; as escolas apoiam-se, cedendo trabalhadores e espaço para reconstrução. As mais afectadas correm contra o tempo, porque os desfiles acontecem a 6,7 e 12 de Março.

As somas movimentadas no Carnaval de 2010 mostram que a festa no sambódromo (Avenida Marquês de Sapucaí) é um negócio lucrativo de grande escala, fundamental para a cidade.

Numa hipotética alegoria carnavalesca, inspirada nos “Quatro Elementos” tendo como mote os últimos acontecimentos que chocaram o Rio, a Água e a Terra, caracterizariam a tragédia social, o Fogo e o Ar, o ressurgir da epifania popular. É no Rio, onde tudo acaba em samba.

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 05/02

Guerra ao narcotráfico já fez 30 mil mortos

por Patricia Lozano, correspondente

Quando tomou posse em 2006, o presidente do México, Felipe Calderón, declarou a “guerra contra o narcotráfico” uma prioridade. Quatro anos depois, esse objectivo apresenta números idênticos para cada lado: 30 mil mortos e 30 mil detidos.

Todos os dias são divulgados dados dos confrontos. De um lado, a luta entre cartéis da droga, e contra a polícia, com a descoberta de corpos sem cabeça, em carros abandonados, ou pendurados em pontes. Do outro, a captura de criminosos ligada à apreensão de droga, dinheiro, armas, viaturas, embarcações e aeronaves.

Nesta guerra impressiona sobretudo a violência do crime organizado, que recorre a execuções públicas, decapitações e esquartejamentos, para mostrar a sua força, a que os meios de comunicação diariamente dão visibilidade.

A falta de resultados tem dado argumentos aos que defendem uma mudança de estratégia, com vista à legalização das drogas. Mas Calderón reafirma que o combate contra o narcotráfico continuará, e a sua determinação tem o apoio dos países vizinhos: EUA, Guatemala, Honduras e El Salvador.

Gil Kerlikowske, do Gabinete para o Controlo de Drogas dos EUA, declarou que o México vai no caminho certo e rejeitou a ideia de que legalizar as drogas ajudaria a reduzir a violência. Kerlikowske, o “czar antidroga”, disse ainda que as acções realizadas pelo Presidente Calderón são adequadas, uma vez que o México não tem outra alternativa senão enfrentar os cartéis.

Link:http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1776249&seccao=EUA%20e%20Am%E9ricas

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 29/01

Programas de apoio social falham objectivos

Jair Rattner, correspondente do Estado de São Paulo

Dois dos mais emblemáticos programas sociais adoptados nos últimos anos no Brasil falharam nos seus objectivos. A reforma agrária e o programa de habitação popular Minha Casa Minha Vida enfrentam dificuldades para dar melhor qualidade de vida aos beneficiários.

Apoiada pelo Movimento dos Sem-Terra e por outros semelhantes, a reforma agrária vem sendo aplicada no Brasil desde o governo Fernando Henrique Cardoso, há 16 anos. São 3,5 milhões de pessoas que moram nos “assentamentos”, que ocupam uma área de 76 milhões de hectares – 9% do território brasileiro.

No Minha Casa Minha Vida, criado há quase dois anos, as primeiras moradias começaram a ser distribuídas há apenas seis meses. Símbolo do governo Lula, utilizado como bandeira na campanha eleitoral, até agora foram assinados um milhão de contratos de construção para a população de rendimento mensal até dois mil euros, e trezentos mil foram entregues. O Brasil regista actualmente um défice habitacional de seis milhões de moradias.

Na reforma agrária, 38% das famílias que receberam terras para cultivar têm rendimento mensal inferior a um salário mínimo – cerca de 220 euros.

Entre os que receberam casa, o quadro também não é favorável. Repetem-se os casos de famílias que não conseguem pagar a prestação de 50 reais (cerca de 22 euros). Há famílias que abandonam os apartamentos, outras que vendem a pessoas com maior poder de compra, apesar de tal ser proibido até o apartamento estar totalmente pago.

Link: http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1769467

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 15/01

A ETA está mais fraca e mais só

Por Virginia López, correspondente do ‘El Mundo’

Os espanhóis estão cansados da violência e não acreditam em nenhum comunicado da ETA que não inclua de forma específica a sua intenção definitiva de deixar as armas. Por isso, o comunicado de segunda- -feira, onde o grupo terrorista basco anunciou um “cessar-fogo permanente e geral”, foi considerado insuficiente, tanto pelo Governo do socialista José Luis Rodríguez Zapatero, como pela maior parte da sociedade espanhola e basca. Por trás desta estratégia há uma série de matizes que devem ser tidos em conta no momento de analisar até que ponto estamos perto do fim do terrorismo em Espanha. O primeiro, a proximidade das eleições no País Basco, que se realizam em Maio. Nelas, não pode participar o Batasuna, partido ilegal em Espanha desde 2002 por ser considerado o braço político da ETA. Tanto o Governo como o principal partido da oposição, o Partido Popular, deixaram claro à Izquierda Abertzale (esquerda radical basca) no pacto terrorista que não estará na vida democrática da região enquanto continuar a ser o porta-voz da ETA. Pela primeira vez parece que o Batasuna está a fazer exigências à ETA para que finalmente se possa encontrar uma saída democrática para o País Basco, com eles como agentes activos. Mas Madrid é firme e garante que o Batasuna não estará nas eleições enquanto não houver provas claras de que se afastam definitivamente da ETA e as provas claras de que a ETA abandona de uma vez por todas as armas.

E sem condições. Desde a trégua de 2006, quando o Governo acreditou estar a iniciar um processo de paz – interrompido com o atentado no aeroporto de Madrid em que morreram duas pessoas -, as forças de segurança espanholas, apoiadas por França e Portugal, actuaram com contundência contra a ETA, detendo os seus principais membros e logrando debilitar o grupo terrorista. Os espanhóis sabem que o fim da ETA está perto e a ETA também sabe, pelo que trata de tirar proveito da sua rendição. Mas a sociedade espanhola não vai permitir porque não esquece as 839 pessoas assassinadas desde que os terroristas começaram a actividade, nos anos 60. Então, contavam com o apoio de muitos espanhóis porque enfrentaram o franquismo, mas na actual democracia a ETA ficou só e mais fraca que nunca.

Link: http://dn.sapo.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1757598&seccao=Europa&utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%253A+DN-Globo+%28DN+-+Globo

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 08/01

Regular os media com luvas de boxe. Os jornais amigos do Governo, Jornalistas críticos ficam à porta

Por Katalin Muharay

Apesar de as expectativas serem baixas, Budapeste não podia ter começado pior a sua primeira presidência da UE. Em vez das habituais notícias sobre as prioridades da presidência, chovem críticas contra a nova lei dos media que ameaça a liberdade de imprensa no país. Muitos começaram a questionar a aptidão da Hungria para representar a UE quando não respeita princípios democráticos fundamentais.

“Também há vida para além da UE”, disse Viktor Orbán, ainda no seu primeiro mandato, antes da adesão da Hungria em 2004. Ao longo de oito anos na oposição e desde que voltou a levar os conservadores do Fidesz ao poder, Orbán demonstrou não se preocupar demasiado com opiniões de fora.

O primeiro-ministro governa para consumo interno: medidas como a confrontação com o FMI, o imposto especial sobre grandes empresas e bancos estrangeiros ou a promessa de nacionalidade húngara às populações de etnia magiar nos países vizinhos, deram-lhe popularidade junto de um importante segmento da população mais nacionalista.

Até agora a comunidade internacional tinha tolerado as medidas de um primeiro-ministro empenhado em controlar a quase totalidade das instituições do país. Mas a já famosa “Lei Mordaça” transbordou o vaso e a partir de agora todas as suas medidas vão estar sob escrutínio severo.

Orbán sempre teve relação difícil com os meios de comunicação que não lhe eram favoráveis. No seu primeiro Governo (1998-2002) deixou de existir publicidade estatal nalguns órgãos de oposição, deixando-os em situação difícil. O aparelho do Fidesz foi alargando o seu domínio nos media privados, culminando agora com o controlo total da imprensa estatal.

Se o real objectivo da lei fosse disciplinar media que “ofendem a dignidade humana” ou “não são politicamente equilibrados”, o poderoso Conselho dos Media já devia ter punido alguns dos apoiantes incondicionais do Fidesz como o Magyar Hirlap, que, ultrapassando todos os limites, descreve os seus adversários políticos como “canalhas nojentos”, “vermes repugnantes” e “ratazanas”.

Mas a maior ameaça para a liberdade de imprensa na Hungria é, se para conseguir sobreviver, o jornalismo crítico optar pela via da autocensura.

O Magyar Hirlap considera que as críticas internacionais mais não são do que uma “campanha histérica” dos jornais liberais ocidentais orquestrada pela esquerda húngara. Segundo este jornal pró-governamental, “a liberdade de imprensa que defendem pessoas como o ministro de Exteriores do Luxemburgo” não é mais do que “uma montanha de lixo devastador”.

Orban sempre discriminou jornais da oposição. Numa visita a Londres, antes da presidência da UE, o correspondente do ‘Népszabadság’, o maior jornal de referência do país, foi impedido de entrar em Downing Street. O assessor de imprensa do primeiro-ministro húngaro fez saber que podia utilizar a notícia da agência nacional MTI. O jornal decidiu então não noticiar o evento.

Link: http://dn.sapo.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1751667&page=-1

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 18/12

Brasil e o motor do seu desenvolvimento

por Jair Rattner, correspondente do ‘Estado de S. Paulo’

Em Outubro de 2008, quando os mercados financeiros internacionais entraram em ruptura, o Governo brasileiro encontrou a fórmula para não deixar a economia ir ao fundo. Seguindo o exemplo da China, que anunciou que ia pôr 460 mil milhões de euros para manter o ritmo da economia, o Brasil optou por fazer o mesmo mas com menos recursos. O instrumento usado foi o Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social (BNDES).

A primeira injecção de capital foi de 100 mil milhões de reais, seguida de outra de 80 mil milhões. Grande parte foi para salvar empresas que tinham perdido apostas no mercado financeiro. É o dobro do total que o banco tinha previsto em empréstimos para 2008, totalizando 270 mil milhões de reais (mais de 120 mil milhões de euros) – mais do dobro do que empresta o Banco Mundial. O efeito no Brasil foi claro: o país teve um recuo de apenas 0,2% na economia em 2009 e este ano o PIB do país deverá crescer 7,5%, a maior taxa dos últimos anos.

Criado em 1952 como banco público de fomento à economia, o BNDES actua através de financiamentos com juros reduzidos – a taxa no Brasil é de 12% ao ano. Segundo os seus estatutos, os projectos financiados são os que forem considerados importantes para o desenvolvimento do país, especialmente os de ampliação da capacidade produtiva. Ficam de fora áreas como comércio de armas, motéis, saunas e jogos.

Nos últimos anos, além do trabalho com pequenas e médias empresas e de projectos como hidroeléctricas e ferrovias, a política do BNDES tem sido a de apoiar a criação de multinacionais de origem brasileira. Hoje, o JBS-Friboi é o maior produtor mundial de carne de bovinos, a Sadia/Perdigão é a maior exportadora mundial de carnes processadas. Empresas que já tinham grande dimensão, como a Camargo Corrêa, tiveram operações facilitadas pelos empréstimos do banco.

Mas o BNDES também gerou críticas à sua actuação. Para a ONG Ibase falta ao banco estratégia de política industrial. Para o economista Luíz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do banco, representa uma interferência excessiva do estado na economia. Também existe a preocupação do efeito inflacionário que pode ter o volume dos seus empréstimos.

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Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 11/12

Raiva em Espanha contra os controladores aéreos

por Virginia López, correspondente  El Mundo

No passado fim-de-semana, 440 controladores aéreos abandonaram os seus postos de trabalho devido a repentinos ataques de ansiedade. Como consequência, foi fechado o espaço aéreo durante 24 horas, o que provocou o caos nos aeroportos espanhóis, com mais de 650 mil afectados. Era véspera da maior ponte do ano, pelo que tanto os que iam de férias como os que os esperavam no destino para fazer negócio estão mais do que chateados. Toda a raiva dos espanhóis, tantos os que iam viajar de avião, como praticamente o resto da sociedade, foi canalizada numa mesma direcção: o reduzido e privilegiado colectivo dos controladores aéreos.

A primeira e fundamental razão são os salários astronómicos que, em tempos de crise e tendo em conta que é um serviço estatal, provocam o descontento dos cidadãos. Segundo a AENA, a empresa que gere os aeroportos, em 2009 o salário médio de um controlador era de 350 mil euros anuais, ainda que alguns atingiam os 700 mil euros ao ano, graças a um convénio laboral assinado em 1999, com o então Governo conservador de José María Aznar, no qual também se incluía a autogestão e o controlo dos acessos à profissão.

Este ano, o ministro de Transportes espanhol, José Blanco, disse: “Já chega aos privilégios insustentáveis dos controladores.” Após inúmeras e infrutíferas reuniões com os sindicatos, o Governo estabeleceu um máximo de horas extras – onde mais ganhavam os controladores – e reduziu os salários em 40% até uma média de 200 mil euros anuais.

Mas os controladores aéreos sabem que são poucos e que têm de facto o controlo aéreo porque não é fácil substitui-los por militares ou outros profissionais, já que é preciso semanas de formação e condições especiais para trabalhar. Por isso, ao longo da última década defenderam os seus privilégios com ameaças de greve que muitos espanhóis entendem por chantagem.

Se no dia 3 os controladores tivessem convocado uma greve normal, provavelmente o resto da sociedade teria, no mínimo, ouvido os seus argumentos -falam do excesso de trabalho e do stress que provoca a sua profissão. Mas a greve encoberta e ilegal que deixou importantes prejuízos económicos, no difícil momento que passa Espanha, pôs o resto dos espanhóis contra eles.

Até 8 anos de prisão

O Ministério Público vai pedir até oito anos de prisão para os controladores aéreos que abandonaram os seus postos de trabalho alegando motivos de saúde. O abandono colectivo dos aeroportos, com a paralisação do espaço aéreo do país é um delito “muito grave” penalizado pela lei de navegação. Além disso, milhares de passageiros reclamarão indemnizações aos controladores.

Estado de alarme pela primeira vez

Nunca se tinha activado o estado de alarme em Espanha até que o presidente Rodríguez Zapatero recorreu aos militares para restabelecer a ordem no espaço aéreo do país. A oposição conservadora apoiou a medida mas culpa ao governo socialista de ser o responsável pela crise do passado fim-de-semana por não ter conseguido negociar com os controladores previamente.

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Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 04/12

Moldávia: entre a Rússia e o Ocidente

por Corneliu Popa, correspondente da Rádio Roménia

As eleições parlamentares da República da Moldávia, realizadas no passado dia 28, não conseguiram arrumar a casa e resolver a crise política que dura há já alguns anos. O Partido dos Comunistas da Moldávia conseguiu o melhor resultado e arrecadou 42 lugares dos 101 do Parlamento. Os partidos pró-ocidentais conseguiram uma maioria suficiente para formar governo, mas insuficiente para elegerem um novo presidente. Segundo a Constituição, o presidente deve ser eleito pelo Parlamento com o voto de três quintos dos deputados. Esta era a maior aposta destas eleições, já que o país vive há mais de um ano com um presidente interino.

Por outro lado, o escrutínio veio confirmar que, apesar de enterrada oficialmente na recente cimeira da NATO em Lisboa, a Guerra Fria continua a dominar a política nas ex-repúblicas soviéticas: também na Moldávia o confronto ideológico se deu entre os reformadores a favor da adesão do país à UE e os conservadores que querem uma aproximação à Rússia.

Parece óbvio que o Partido dos Comunistas moldavo se oporá a todo o custo à eleição dum presidente com visões ocidentais, que tente uma aproximação à UE. Por outro lado, o resultado pouco esclarecedor das eleições poderá agravar os problemas económicos da Moldávia. O país, que exporta sobretudo vinho e produtos alimentares, sofre de corrupção enraizada, com uma imprensa e um aparelho judicial submissos ao poder político. E uma aproximação à Roménia, até uma união, se houver interesse mútuo, poderá ser interpretada como um bilhete de entrada na UE e de acesso ao espaço livre do mercado europeu.

Ao longo da sua história agitada a República da Moldávia passou várias vezes pelos domínios romeno, turco e russo. Anexada pela antiga URSS em 1944, declarou a independência em 1991, mas do total da população moldava cerca de dois terços são de etnia romena, o que alimenta os sonhos dos unionistas. A Roménia, aliás, tem sido acusada repetidas vezes de ingerência na política interna da Moldávia e de financiar os partidos pró-ocidentais. Mas a Rússia também não se coíbe de apoiar a pequena região separatista da Transnístria, que apesar de fazer parte da República da Moldávia, declarou a independência em 1990 com o apoio do Exército Vermelho.

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Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 27/11

Elegeram um palhaço. E agora?

Por Renato Mendes, jornalista ‘freelance’ brasileiro

A eleição do deputado federal Francisco Everardo Oliveira Silva, o palhaço Tiririca, está sendo um teste para a democracia brasileira. Com 1,34 milhões de votos, ele foi o deputado mais votado nas eleições de Outubro. O palhaço que tinha como slogan de campanha, “pior que tá, não fica” continua surpreendendo os brasileiros. A quantidade massiva de votos que o elegeram deverá render ao Partido da República (PR) cerca de 2,7 milhões de reais (1,15 milhões de euros) por ano. Esse é o peso do deputado na divisão dos recursos públicos provenientes do Fundo Partidário, de 201 milhões de reais (87 milhões de euros), que é formado por multas e penalidades eleitorais, recursos financeiros e doações espontâneas privadas. O critério de divisão dos recursos entre os partidos é o número de votos alcançados por cada partido.

O deputado eleito também contribuiu para o aumento de 64% no tempo de antena do PR, que alargou a sua bancada na Câmara dos Deputados. Everardo elegeu outros três deputados da sua coligação porque excedeu em mais de um milhão de votos o coeficiente eleitoral de 304,5 mil votos – número necessários para se ob- ter uma cadeira na Câmara.

A eleição de Tiririca causou desconforto numa parcela da sociedade. Perante a suspeita de o humorista ser analfabeto, o Ministério Público tentou, sem sucesso, cassar o seu mandato. Sem que alguém pudesse imaginar, o Presidente Lula afirmou ser uma “cretinice” o processo contra o humorista. Se não é analfabeto, disputou e venceu, porque destituí-lo?

Tiririca foi também acusado de realizar uma campanha injusta, porque foi baseada numa personagem. Mas o alter ego político não é nenhuma novidade no Brasil. Até agora, a lógica democrática garantiu a manutenção de Tiririca no cargo.

A tese de que a eleição do deputado é um movimento de protesto contra o actual sistema político não passa de uma tentativa preguiçosa para explicar o fenómeno eleitoral.

Em entrevista a um jornal de São Paulo, onde foi colunista durante as eleições, a actriz Fernanda Torres explica a “palhaçada”: “Foi apenas uma piada niilista do eleitor, que vai se voltar contra ele mesmo.” Ao contrário do que dizia o slogan do palhaço: dá para piorar sim, e muito.

http://dn.sapo.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1721431&seccao=CPLP

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