MUNDO Geografia e Política Internacional – Maio
01/05/2012 Deixe um comentário
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Caderno História&Cultura
BEATLES, 50 ANOS
A ESTRANHA RELAÇÃO DO ROCK COM A DITADURA DE SALAZAR
Lançada em 1962, “Love Me Do” foi o primeiro sucesso mundial dos quatro rapazes de Liverpool, cujas músicas, filmes e atitudes invadiram o mundo ocidental, revolucionaram a cultura e estimularam impulsos libertários da juventude. Mas a história foi um pouco diferente em Portugal
Renato Mendes, de Lisboa
Especial para Mundo
Há 50 anos a maior banda de rock do século XX, os Beatles, emplacavam o seu primeiro sucesso musical, “Love Me Do” (1962). Os quatro jovens de Liverpool irradiaram sua música pelo mundo, revolucionando a estética musical, contribuindo de forma decisiva para o estabelecimento de um movimento de contracultura, que marcou o Ocidente e o Oriente, com repercussões até os dias de hoje. Na década de 1960 já existiam Frank Sinatra e Elvis Presley, mas a fama sem precedentes alcançada pelos Beatles fez com que a banda interferisse na esfera política, social, cultural e religiosa em todo o mundo. No entanto, a história foi um pouco diferente em Portugal, país com tradições culturais conservadoras, onde, à época, vigorava o Estado Novo de Antônio de Oliveira Salazar, com características fascistas.
Nos anos 1960, a cultura em Portugal estava encarcerada em nichos, se restringia a pequenos grupos, restritos, fechados, sem qualquer possibilidade de alcance por um público alargado. Os agentes culturais atuavam sempre sobre a pressão direta da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), ou receando serem delatados por simpatizantes do regime. “Eu tinha medo até de acender um cigarro na rua. Se não tivesse licença de isqueiro podia ser preso. Isso é uma coisa que hoje em dia é inacreditável. Salazar justificava o imposto, como forma de proteger a indústria fosforeira nacional”, comenta o jornalista português especializado em cultura Luís Pinheiro de Almeida. Em 1968, ele ajudou a organizar um ciclo de conferências chamado “Popologia”: a música, a literatura, o cinema e a arte eram analisados sob o signo do pop, mas sempre vigiados pela polícia.
Adriano Rodrigues, catedrático português, criador do primeiro curso de Comunicação Social em Portugal (1979), diz que nos anos 1960, apenas os filhos da elite estudavam em Portugal, por isso, inicialmente, apenas uma minoria universitária foi influenciada pelo fenômeno da contracultura em geral e da “beatlemania”, em particular. “Se deixarmos de lado os emigrantes e os refugiados, a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, a cultura portuguesa parece ter entrado em letargia, devido em grande parte ao fenômeno da censura do Estado Novo e é por isso que, nos anos 1960, a vida cultural dos portugueses era muito fechada nas práticas culturais tradicionais.”
A expressão inglesa yeah, yeah, yeah, que faz parte da letra de uma das músicas dos Beatles, “She Loves You”, deu nome ao movimento cultural que começou na Inglaterra e que se propagou por diversos países. No Brasil se tornou iê-iê-iê e foi apropriado pela Jovem Guarda, a partir de 1965; em Portugal, chamava-se ié-ié. Contrariamente ao que se poderia imaginar, foi a extrema-direita salazarista que promoveu, em 1965, o primeiro grande Concurso Ié-Ié, no antigo Teatro Monumental, no Saldanha (região central de Lisboa), diz Luís Pinheiro de Almeida, que assistiu a algumas das apresentações. O concurso foi promovido pelo Movimento Nacional Feminino (MNF), que apoiava a ditadura, embora, ironicamente, nenhuma mulher participasse do concurso.Participaram 350 jovens, com média de 18 anos, distribuídos por 73 bandas inscritas. As bandas deveriam apresentar quatro canções, com três minutos cada, mas pelo menos uma delas deveria ser inédita e em português. Foram distribuídos prêmios em dinheiro e artigos variados, desde instrumentos musicais até sapatos e gravatas. Segundo Luís Pinheiro de Almeida, era possível ler um grande cartaz no palco, com a seguinte mensagem da ditadura: “Atenção! Barulho que não permita o júri ouvir os conjuntos, objetos atirados para o palco, distúrbios na sala são motivos para a expulsão do espectador que assim proceder sem que a organização lhe devolva a importância do bilhete. A juventude pode ser alegre sem ser irreverente.”
Ora, mas porque a extrema-direita portuguesa, que mantinha o país fechado às influências do exterior resolveu criar o concurso nacional no ápice de um movimento que interferia no processo de produção cultural de quase todos os países ocidentais? Os organizadores afirmavam que o concurso tinha o objetivo de entreter as pessoas, desviar a atenção dos jovens para a música, no sentido de não se envolverem em contestações. A ditadura conseguiu centrar a atenção dos jovens em um evento nacional, sem sentido político. Luís Pinheiro de Almeida conta que cerca de 80% das bandas que se apresentaram no concurso tocavam músicas dos Beatles.
Qualificado como um movimento alienante, muitos artistas e intelectuais se opunham ao movimento, e em última análise, aos próprios Beatles. “Nós nessa altura éramos muito críticos a essa forma de realização juvenil, porque quem está confrontado com o exílio, com uma guerra, com a ditadura, não aceita muito bem que a vida seja alegre e fácil”, afirma José Mário Branco, músico e compositor português, referência no país por suas músicas de protesto. Prestes a completar 70 anos, o músico português diz que o seu álbum preferido dos Beatles é o branco e mostra um livro de partituras com todas as músicas da banda.Sob o signo Beatles
Durante os seus oito anos de existência, os Beatles gravaram 12 discos e venderam mais de 600 milhões de cópias, enquanto os Rolling Stones, no mesmo período venderam 200 milhões. A segunda apresentação dos Beatles na televisão norte-americana foi um marco para a história da música e da televisão: em 9 de janeiro de 1964, a partir de um estúdio de Nova Iorque, a apresentação da banda atingiu um recorde de audiência, com 73 milhões de telespectadores.
Os Beatles também conquistaram Hollywood e protagonizaram cinco filmes. Tamanha exposição foi possível graças a Brian Epstein, o agente dos Beatles, de presença fundamental no lançamento da banda, antes de morrer de overdose em 1967. George Martin foi essencial na produção musical da banda, considerado por alguns como o quinto Beatle. O fim do grupo chegou em 1970, após terem conquistado o mundo, com uma ação judicial movida por McCartney contra os outros integrantes.
O “fenômeno Beatles” só pode ser entendido no contexto político e cultural da década de 1960, quando ocorreu o ápice do movimento de contracultura. Uma onda gigantesca de mobilização na Europa e nas Américas se abateu contra os valores e costumes vigentes, com forte apelo aos jovens pela contestação política e social. Este alcance foi possibilitado pela exposição de largas audiências à produção cultural, concretamente à música, graças aos meios de comunicação de massa, que se sofisticavam, tornando-se acessíveis à medida que novas tecnologias surgiam. Esse processo foi qualificado como “indústria cultural”, segundo o célebre conceito proposto por Theodor Adorno e Max Horkheimer, nos anos 1940.
O movimento de contracultura ganhou força política extraordinária em todo o mundo, graças às revoltas de 1968, nos dois blocos da Guerra Fria. Do lado capitalista, seu maior símbolo foram as revoltas de maio, em Paris, ao passo no lado socialista foi a Primavera de Praga (na antiga Tchecoslováquia). Mas sua maior expressão propriamente cultural aconteceria em 1969, nos Estados Unidos, quando 500 mil jovens participam do Woodstock Music & Art Fair, o Festival de Woodstock, onde se apresentaram trinta dos músicos mais conhecidos à época, considerado um manifesto libertário.
Cultura francesa era hegemônica em Portugal
A expressão“invasão britânica”, criada pela mídia norte-americana para descrever o momento que os Beatles e outros artistas ingleses fazem sucesso nos Estados Unidos, nunca poderia ser aplicada à Portugal, a não ser que fosse alterada para “infiltração britânica”. O jornalista Luís Pinhero de Almeida, autor do livro Beatles em Portugal, afirma que a cultura francesa era hegemônica no país e que referências culturais britânicas quase não existiam. A ditadura era permissiva com as músicas inglesas por duas razões: o inglês era pouco falado e as mensagens que a música transportava não eram contestatórias, como as produzidas na França, essas sim, proibidas.Preso pela polícia do regime em razão da contestação estudantil e exilado em Paris a partir de 1963, o músico e compositor José Mário Branco conta que Zeca Afonso (1929-1987), um dos seus parceiros, inaugurou um novo momento da música portuguesa, a partir do fim dos anos 1950, que ficou conhecido como o movimento dos baladeiros. Zé Mário diz que, já na década de 1950, as canções brasileiras, bem como as francesas, tinham grande influência em Portugal.
As informações que chegavam em Portugal sobre os Beatles e outras bandas tinham como principal suporte a imprensa escrita, até 1965. Após este ano, duas rádios privadas, a Renascença (propriedade da Igreja) e o Rádio Clube Português passaram a difundir a música da banda inglesa. A televisão, fortemente controlada pelo regime, manteve-se distante do fenômeno. A primeira entrevista televisiva com um Beatle, Paul McCartney, só aconteceu em 1987 (13 anos após a queda do regime salazarista) e foi realizada por Luís Pinhero de Almeida, em Londres. Os Beatles nunca se apresentaram no país por falta de capacidade financeira das empresas portuguesas, e não por qualquer impedimento de Salazar, afirma Luís Pinhero de Almeida. Só em 1998, o primeiro Beatle toca em Portugal, Ringo Starr.
No final da década de 1960, existiam dezenas de bandas de rock em Portugal, e um grande número era formado por pessoas ligadas à companhia aérea do Estado: eram comissários de bordo ou pilotos. A maior parte dos discos que entravam no país eram trazidos pelos funcionários da estatal. Luís Pinhero de Almeida conta que “o primeiro disco de rock português é do final de 1960, de Daniel Bacelar e ‘Os Conchas’, um rock do tipo teenage idol, não é ainda o rock do Elvis”. Não por acaso, Bacelar também trabalhava na empresa estatal.
Nuno Leão, de 28 anos, e Ana Gil, de 26 anos, ambos atores e professores de teatro em Lisboa, dizem que, sem perceber, sofreram influência dos Beatles. Lembram-se de quando eram adolescentes e estudavam inglês, as letras da banda surgiam invariavelmente nos livros. Ainda no contexto do ensino, em um curso de teatro, Ana Gil se recorda de ter assistido a filmes da banda. Ambos se surpreendem com a memória de um programa de auditório na televisão portuguesa, com o nome All you need is love, que se tornou popular em meados da década de 1990, que tinha como tema de abertura e trilha sonora as músicas dos Beatles.
Poucos sabem que a letra da música “Yesterday” foi escrita em Portugal, por McCartney, dentro de um carro que saia de Lisboa e seguia para o sul do país, para a região do Algarve, famosa por ser o destino de férias de vários artistas estrangeiros. O universo de informação que emana da banda é profícuo e atinge qualquer pessoa exposta à mídia. A frequência com que surgem assuntos diretos ou indiretos ligados à banda, por meio de efemérides, reedições e remasterizações de álbuns, shows dos integrantes remanescentes, etc., fará com que o “signo Beatles” irradie pelos séculos da cultura popular.