Diário de Notícias – Opinião – 28/01/12

Portugal, um espelho de Espanha

Por Begoña Iñiguez, correspondente

Esta semana, em vésperas de ir para Berlim para se encontrar com a chanceler alemã, Angela Merkel, o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, quis vir a Lisboa para saudar o seu homólogo Pedro Passos Coelho e dar novo impulso às relações bilaterais. Rajoy insistiu que Portugal supõe para o seu Governo um exemplo nas duras medidas de ajustamento que está a levar a cabo. Cortes semelhantes terão que ser feitos em breve no país vizinho. Estas palavras fizeram soar o alarme do outro lado da fronteira e os correspondentes espanhóis tiveram que explicar o que espera a partir de agora os nossos compatriotas.

A visita de Rajoy a Lisboa, a primeira a um país da União Europeia desde que tomou posse, foi organizada em tempo recorde. O primeiro-ministro espanhol já tinha marcada na sua agenda a reunião com Merkel, no dia 26, mas queria vir antes a Portugal. Os dois países precisam mais do que nunca um do outro e juntos vão lutar para defender os seus interesses em Bruxelas.

Mariano Rajoy é galego, sente-se em casa em Portugal, fazendo questão de o lembrar. Isso mesmo disse em setembro após reunir-se com o presidente da República. Insistiu então na importância que teria Portugal para Espanha se chegasse ao poder. Poucos meses depois voltou como primeiro-ministro e repetiu essa ideia. Sangue galego corre também nas veias do ministro dos Negócios Estrangeiros Paulo Portas, que insistiu um dia depois da visita de Rajoy, num almoço da Câmara de Comércio Luso-Espanhola, na importância que tem em tempos de crise a balança comercial entre os dois países e a diplomacia económica. Portas fala a língua de Cervantes e não passou despercebida a sua presença na reunião bilateral em São Bento nem no funeral de Manuel Fraga, o líder histórico da direita espanhola, há uma semana em Compostela.

A agenda transfronteiriça está preenchida até à Primavera. Será então que se retomarão as cimeiras ibéricas. Portugal e Espanha partilham 1200 quilómetros de fronteira, de eurorregiões, projetos e milhões de euros em fundos de coesão. Em época de crise a união faz a força. Muitos dependem dessa colaboração. Veremos se ambos os governos têm noção da sua importância e não se ficam apenas pelas palavras.

Haverá TGV?

É uma das perguntas que levamos anos a fazer a ambos os lados da fronteira. A linha ferroviária de alta velocidade Porto-Vigo está cada vez mais longe. Será uma realidade da próxima década o TGV entre Lisboa e Madrid? Avançar-se-á com uma linha de mercadorias a partir de Sines? A cimeira luso-espanhola de Elvas poderá ajudar a acabar com as dúvidas.

Coesão e emprego

Espanha podia destinar à criação de emprego uma parte dos fundos de coesão concedidos por Bruxelas. Recorde-mos que, entre outras coisas, os ditos fundos serviram para pôr em marcha numerosos projetos conjuntos transfronteiriços. O primeiro-ministro espanhol fez esta proposta, esta quinta–feira em Berlim, depois de se reunir com Angela Merkel.

Link: http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=2269177&seccao=Correspondentes%20em%20Portugal

Diário de Notícias – Coluna Visto de Cá – 26/11/11

Verdade e mentira

Por Alison Roberts, jornalista “freelance” britânica

O inquérito à imprensa agora a decorrer em Londres parece um toque de chamada dos famosos, que fazem fila para testemunhar. Mas foram os pais da Madeleine McCann, a menina desaparecida no Algarve, que deixaram o apelo mais sonante por uma regulação mais forte.

Ao contrário da televisão e rádio, a imprensa britânica está sob auto-regulação, por um conselho nomeada pela própria indústria.

O Inquérito Leveson à Cultura, Pratica e Ética da Imprensa, presidido por um juiz, foi criado depois das revelações sobre escutas feitas pelo semanário News of the World, entretanto fechado. Mas abrange questões mais vastas, tendo grandes implicações para os média.

Na quinta-feira a J. K. Rowling, criadora de Harry Potter, contou como tentou proteger os seus filhos dos tablóides. Um repórter chegou até ela, metendo uma carta na mala da sua filha de cinco anos.

No mesmo dia testemunharam também a actriz Sienna Miller e o ex-chefe da Fórmula Um, Max Mosley. E o advogado Mark Thomson argumentou que a imprensa não tirou as devidas lições da morte da princesa Diana.

O momento mais notório até agora foi quando os pais da menina assassinada Milly Dowler contaram como pensaram que a sua filha ainda estava viva, quando perceberam que mensagens tinham sido apagadas do seu voice mail. Na verdade, foi um empregado do News of the World que o fez, para que a família deixasse mais mensagens para ele utilizar em reportagens.

Embora tudo isso já fosse sabido, ouvir a mãe da Milly contá-lo marcou todos.

Entretanto, Hugh Grant, outra vítima, alegou que o Mail on Sunday terá feito escutas semelhantes – o que foi negado por esse semanário.

Mas foi na quarta-feira que Gerry McCann contou que muitos dos artigos publicados na imprensa britânica sobre ele e a sua mulher eram mentirosos, sinistros ou inventados, e Kate McCann disse ter-se sentido “violada”pela publicação do seu diário.

O testemunho do casal foi descrito por The Guardian como o apelo “mais poderoso até agora” a favor de uma regulação mais forte.

O facto de uma boa parte dos artigos em questão terem sido copia dos da imprensa portuguesa pode dar que pensar.

Blue Bus – 23/01/12

“Cidade histórica de Portugal oficializada na Capital Europeia da Cultura”

Por Marise Araújo

Com crise ou sem crise, o povo não desiste e a cultura resiste… foi dentro desse clima que a cidade de Guimarães, no norte de Portugal, emprestou as suas ruas seculares e cheias de história para ser transformada na Capital Europeia da Cultura 2012. No fim de semana, entre cerimónias protocolares e ilustres convidados, centenas de cidadãos anónimos encheram as praças e assistiram aos espetáculos que por alguns momentos os transformaram na plateia mais alegre da Europa. Pão, circo, arte e esperança – às vezes tenho a sensação de que a máxima lugar comum “não precisamos de muito para ser felizes” acontece onde e quando menos se espera.

Link: http://www.bluebus.com.br/show/1/108188/

cidade_historica_de_portugal_oficializada_capital_europeia_da_cultura_veja_video

Rádio Deutsche Welle – 22/01/12

Guimarães, the European Capital of Culture

Por Alison Roberts

The European Capital of Culture initiative was started in 1985 in a bid to highlight the wealth and diversity of the continent’s cultures and forge new ties between the citizens of different EU member states. More than 40 cities have had the honour so far, with two now taking it on each year instead of one. In 2012, Maribor in Slovenia shares the title with Guimarães, in northern Portugal. In the run-up to Saturday’s official inauguration in Guimarães, Alison Roberts went see how one of the smallest cities ever to take on the challenge is coping, and how such an initiative can be justified in these times of austerity.

Áudio:  http://mediacenter.dw-world.de/english/audio/#!/377835/Urban_renewal_in_Guimaraes

El Correo Galego – 22/01/12

Guimarães, una oportunidad para Portugal

Por Begoña Iñiguez, correspondente

La celebración en la ciudad de la Capitalidad Cultural Europea actua como revulsivo en medio de la profunda crisis que, desde hace una década, atraviesa el norte luso.

Desde ayer, fecha de la inauguración oficial con un espectáculo dirigido por La Fura dels Baus,  Guimarães ostenta el flamante título de Capital Europea de la Cultura 2012. Una oportunidad de oro para una de las ciudades más bellas del país vecino, Patrimonio de la Humanidad como Compostela, y para el aumento y relanzamiento del turismo al otro lado del Miño.

Vista de la iglesia Nossa Senhora da Oliveira, en Guimarães, Capital Europea de la Cultura. Foto: Efe

Éste puede ser el último tren para el norte luso, sumido desde hace una década en una profunda crisis, que ha llevado al cierre de numerosas fábricas textiles en el Valle del Ave, donde se encuentra Guimarães, con el consiguiente aumento del desempleo en la zona, considerada hasta no hace mucho tiempo el motor de Portugal. Es por ello que con esta capitalidad se abre, no solo para el Valle del Ave, sino para todo Portugal una puerta a la esperanza. Atrás quedan seis años de luchas políticas, dimisiones y polémicas para conseguir colocar en el mapa a Guimarães. El resultado salta a la vista, y bien merece una visita, la ciudad ha vuelto a renacer. Sus empedradas calles, que llevan al palacio de los Duques de Braganza, el maravilloso Largo do Toural, totalmente remodelado, al igual que otras plazas del núcleo histórico, como las de Oliveira y Santiago, y su efervescente y joven oferta cultural no son más que un ejemplo de todo lo que tiene que ofrecer en 2012 la que fue primera capital de Portugal, con Don Afonso Henriques.

REDUCCIÓN PRESUPUESTARIA

La reducción drástica de su presupuesto inicial, una vez más por causa de la crisis, ha sido subsanada con la creatividad e la ilusión que han puesto los 158.000 guimaranenses para que esta capitalidad no quede simplemente en ello, sino que deje su impronta en la ciudad, en su economía, en los visitantes y en las futuras generaciones. Uno de los aspectos que conviene destacar es la exitosa recuperación del viejo polo industrial textil, abandonado tras el cierre de la gran mayoría de las fábricas que desde hace dos siglos eran el motor de Guimarães. En dichas naves, se han programado numerosas exposiciones, seminarios, actuaciones y proyectos originales, en los que colaborarán los cineastas de la talla de Manuel de Oliveira y Victor Erice, quien hará un documental sobre una de ellas, rememorando el día a día de los trabajadores que le dedicaron lo mejor de sus vidas.

CENTRO CULTURAL VILA FLOR.

En el centro cultural Vila Flor, en las fábricas recuperadas y en sus emblemáticas plazas los guimaranenses quieren mostrar al mundo sus tradiciones, sus bailes, su música y su manera de ser en un proyecto pionero denominado comunidad y en el que la incombustible Susana Ralha há conseguido con mucho esfuerzo la participación de un numero-sísimo grupo de ciudadanos de todas las edades. No son profesionales, aunque se sienten orgullosos de sus orígenes, y quieren contagiar al visitante su alegría y optimismo. Muy cerca de Galicia, al otro lado del Miño, se esconde uno de los tesoros más bien guardados de Portugal y de nuestra historia común. En Guimarães no solo se come bien, se vive y se lucha por darle la vuelta a la crisis con trabajo, creatividad y dinamismo. El tiempo dirá si esta capitalidad europea de la cultura 2012 en Guimarães logra sus objetivos con un presupuesto reducido y sin grandes estrellas mediáticas. Ahora es el momento de dejar de lado las posibles críticas y de comprobar in situ lo que les cuento en estas líneas.

Link: http://www.elcorreogallego.es/tendencias/ecg/guimaraes-oportunidad-portugal/idEdicion-2012-01-22/idNoticia-724704/

Entrevista com a presidente da AIEP – “Nós Por Cá” – 22/01/12

A atual presidente da Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal, Marie-Line Darcy, foi entrevistada no programa “Nós Por Cá”, da RTP 2, no passado Domingo, dia 22 de Janeiro.

O programa “Nós Por Cá” é um magazine televisivo semanal do Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural, que dá a conhecer várias comunidades que escolheram Portugal como país de acolhimento, através do relato de histórias de vida, gastronomia, desporto e cultura.

Link: http://www.youtube.com/watch?v=3XDSKTxC0JY&feature=youtube_gdata_player

Cartoon

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Luís Afonso, Jornal de Negócios

BBC – 12/01/12

The changing landscape of the Douro River Valley

Por Alison Roberts

Most visitors are drawn to Portugal for its sun, sea and sand, along with Lisbon’s historical sites. But the country offers an astonishing variety of landscapes for its size, with none more memorable than the Douro, a verdant valley 300km north of the capital, that cuts across northern Portugal from the Spanish border to the Atlantic Ocean. Its kilometres of stunning terraced vineyards were designated a Unesco World Heritage Site in December 2001, prompting a flurry of tourism investment that is now paying off handsomely.

Most visits to northern Portugal start in Oporto (known to locals as Porto), the country’s second-largest city. Known for its art and fashion scenes and buzzing nightlife, Porto’s main claim to fame is as a hub for the port wine industry. Warehouses emblazoned with company names that recall British and other foreign founders line the south bank of the Douro River, and most have guided tours and tastings. The nearby rabelo sailboats, which once ferried in barrels of wine from vineyards upstream, now offer short trips, usually accompanied by a glass of port, a fortified tipple that may be served as an aperitif or at dessert, or by one of the new cocktails that are updating the wine’s once crusty image, such as the Porto Flip, made with red port, brandy and an egg yolk.

At the Quinta do Bonfim vineyards in the Douro, grapes are being picked for the production of port wine. (Armando Franca/Associated Press)

To fully experience the Douro Valley, however, head upstream to the Alto Douro (Upper Douro) wine region. Visitors can choose between a three-hour dash by chopper to Mesão Frio, on the western edge of the wine-growing area, or a leisurely cruise upstream on one of the river’s many hotel boats, some of which have a pool and a sundeck. Alternatively (and more cheaply) take the Douro rail line to Pêso da Régua (usually known as Régua), a river port through which most of the region’s wine has been shipped for centuries. If you opt to drive the hour or so from Porto, consider taking at least a short boat trip from Régua or further upstream at Pinhão. It is only when gliding along midstream that you can fully appreciate the grandeur around you.

The grapes for port – or rather, for the wine that is then fortified withaguardente (Portuguese brandy) to make port – are grown in these upper reaches of the river valley. Curve after curve of hills unfold along the river, lined with terraces carved out from the slatey soil.

The Alto Douro is the world’s oldest formally demarcated wine region; its limits were defined in 1756 by the reforming minister known to posterity as the Marquess of Pombal. Some of the original stone markers can still seen at the prize-winning winery Quinta Nova da Nossa Senhora do Carmo, one of dozens of local quintas (estates) where you can dine or stay in charming and authentic surroundings.

While the port wine industry remains strong, local grapes are now also being used to make fine red and white table wines that are attracting much foreign interest. One of the Douro Boys, a group of winemakers that drove this change, welcomes visitors for table wine tastings at Quinta do Crasto.Contact quintas directly to book visits, with lunch or dinner, or ask the Port Wine Route to put together an itinerary for you. At harvest time you can help pick grapes or even tread them alongside locals.

As tourism to the Douro Valley has grown, a handful of gourmet restaurants and ultra-modern boutique hotels have opened to complement the area’s traditional family-run estates. On a hilltop site across the river from Régua, the Aquapura DouroVallery resort has a slick design, a well-equipped spa, cookery classes and cycling tours. The nearby town of Lamego is full of fine baroque buildings and the hilltop shrine to Nossa Senhora dos Remédios is approached via an imposing granite staircase lined with azulejos (enamel tiles), a Portuguese speciality.

In Armamar, local fare gets an update at DOC, a glass-walled box on the river. Here local lad Rui Paula combines childhood memories with his gourmet training to reproduce hearty dishes in a lighter, more modern form. He uses prime regional ingredients such as bísaro pork (meat from pigs fed only on chestnuts), cured sausages and wild mushrooms, but even this far inland, traditional dishes include roast octopus.

The main showcase for the region’s cultural revolution is the Museu do Douro, which opened in Régua in 2008 and is located in the restored former home of the royal port wine company. It has changing exhibitions on local history, featuring the wine trade front and centre. An exhibition on the life of the formidable Antónia Adelaide Ferreira, who defied mid-19th-century Portuguese conventions to ably run one of the biggest local wine companies after the death of her British husband, is running until May. A museum offshoot around the corner – in a delightfully smelly former wine warehouse – hosts a permanent exhibition on wine-making.

In the summer, steam trains complement regular services from Régua along the river to Tua. All stop at Pinhão, whose station is lined with beautiful azulejo panels depicting rural life. There’s also a shop, called Wine House, that sells books and other wine-related paraphernalia, and former rail workers’ cottages that contain fascinating displays of the traditional equipment used in wine-making. The riverfront CS Vintage House hotel has a fine restaurant and organises wine tastings.

Link: http://www.bbc.com/travel/feature/20120111-the-changing-landscape-of-the-douro-river-valley

Rádio Deutsche Welle – 08/01/12

China invests in Portugal

Por Alison Roberts

Portugal has a plan up its sleeve to get itself out of debt. Selling off assets to China.

Portugal’s government has sold more than a fifth of the shares in the country’s state electricity supplier Energias de Portugal (EDP) to China’s Three Gorges – itself a state-owned company. This deal looks to be a sign of things to come, but as Alison Roberts found out, not everyone is happy about that.

Áudio: http://mediacenter.dw-world.de/english/audio/#!/361201/China_invests_in_Portugal/Program=3067

Rádio Deutsche Well – 06/01/12

Por Alison Roberts

Programa Worldlink

Anti-austerity demonstrations have been multiplying in Europe’s westernmost country, where the declared aim of the centre-right government is to go even further in reforming the economy than required under the country’s euro-zone bailout deal. Public-sector workers are on the front-line of this battle, not least because they face cuts of up to a seventh of their income in 2012.  Among the workers affected are soldiers and, for the first time since the military coup of 1974, serving soldiers are out on the street protesting. Alison Roberts went to meet one, and found out that some public servants are more equal than others.

Link: http://mediacenter.dw-world.de/english/audio/#!/359723/The_times_they_are_a_changing

Cartoon – 03/01/12

Blog Anterozóide

Revista Cálculo – 01/2012

Entrevista Sara Santos matemática do The Royal Institution of Great Britain

por Renato Mendes

“Um Saltimbanco na Matemática”

Sara Santos, jovem matemática portuguesa, entende de geometria não euclidiana e de sistemas dinâmicos. Vinha levando a vida típica de quem se dedica à matemática: mestrado, doutorado, aulas. Mas é uma mulher ativa: joga capoeira, pratica ioga, dança. Uma vez, participou de um concurso promovido pela Amazon, a livraria da internet: qual é o melhor jeito para embrulhar um presente? Sara mandou sua sugestão (com provas matemáticas), ganhou o concurso e deu várias entrevistas para jornalistas do mundo inteiro. Descobriu que tem talento para conversar sobre matemática com pessoas leigas, e descobriu que consegue usar a matemática para divertir o seu interlocutor. Depois conheceu um artista de rua, juntou o talento para explicações com a capoeira, e hoje Sara é reconhecida pela capacidade de fazer uma passante apressado parar, curtir um show de rua sobre matemática, e seguir sua vida com vontade de saber um pouco mais.

Você é matemática ou divulgadora de ciência?

Hoje eu trabalho com a divulgação de matemática e, em parte de meus projetos, desenvolvo técnicas para comunicar a matemática para determinados públicos. Grande parte do meu trabalho na The Royal Institution of Great Britain é comunicar matemática para uma audiência altamente técnica, ou seja, para crianças com talento em matemática. Num de meus projetos, eu comunico a matemática para pessoas que não escolheram estudar matemática – elas estão apenas passando na rua, fazendo alguma outra coisa, e se sentem atraídas pela apresentação de maths busking (em inglês, um “busker” é um artista de rua, desses que andam de bicicletas de uma roda só, cospem fogo, equilibram pratos, fazem mágicas com a gravata de uma passante).

Esse projeto me rendeu um prémio em Portugal, o Prémio Seeds of Science 2011. Fiquei muito feliz de saber que o que tenho feito fora de Portugal também interessa a profissionais portugueses de comunicação. Fiquei a pensar na possibilidade de levar o projeto para Portugal.

Como surgiu o espetáculo de rua?            

Maths busking é levar matemática para a pessoa que está vivendo sua rotina de todo o dia, está passando na rua, fazendo compras, a caminho da escola ou do trabalho; que está no intervalo do almoço. Uma pessoa só vai parar para assistir um espetáculo se ela achá-lo interessante. Temos de contar que o público é passivo: ele não está necessariamente interessado em participar. Temos de cativar o público.

O projeto maths busking começou em 2010. Tínhamos dois objetivos na ocasião: atrair a atenção do público para a matemática e, ao mesmo tempo, mostrar para a comunidade científica que é possível comunicar bem a matemática. Muitas pessoas que vivem de divulgar a ciência não acham possível divulgar a matemática para um público leigo.

Eu tenho um amigo que é comediante, do tipo stand-up. Ele me deu detalhes sobre o que é espetáculo de rua, e juntos nós identificamos elementos essenciais para um espetáculo sobre matemática. Desenhamos um paralelo entre os espetáculos de rua e as técnicas existentes para comunicar ideias matemáticas. No espetáculo de rua, existem ideias fundamentais, às quais demos o nome de axiomas.

O primeiro dos nossos axiomas é que o maths busking é… busking. Quero dizer, a audiência não está comprometida, está de passagem. Temos de trazer a audiência para o nosso lado, e sem envergonhar ninguém. O segundo dos nossos axiomas é que a atração principal do espetáculo tem de ser matemática, porque não queremos desvirtuar o projeto e atrair artistas que só sabem fazer malabarismos com serras elétricas, que só sabem usar fogo: isso é batota (trapaça no jogo). O terceiro dos nossos axiomas é que o público tem de tirar alguma coisa do espetáculo. Ou a pessoa leva uma ideia matemática, ou leva uma atitude positiva em relação à matemática, ou leva alguma coisa que nós lhe tenhamos dado. Às vezes, distribuímos umas tirinhas de papel para fazer pentágonos, onde há o endereço do nosso website e todas as explicações para entender o show.

Como é entreter uma pessoa na rua com matemática?

O espetáculo pode durar entre 3 minutos e 10 minutos, mas já fizemos espetáculos de 30 minutos. Não podemos dar às pessoas um quebra-cabeça para resolver. Isso não é divertido. Para fazer um show de sucesso, temos de usar o humor.

Nós convidamos o público a participar. Usamos cartas mágicas, cordas, coletes, algemas, dinheiro. As pessoas ficam surpresas com a quantidade de objetos que usamos. Nós pedimos às pessoas que segurem uma carta para nós, ou que se deixem atar, e aí pedimos às pessoas atadas que usem a matemática para se livrar do nó sem cortar as cordas.

Nós treinamos voluntários para o show, e apresentamos temas que conhecemos bem ou que, por curiosidade, gostaríamos de conhecer melhor. No treinamento, usamos os materiais que já temos, mas é igualmente importante criar novos shows. No treinamento dos voluntários, muitas vezes surgem ideias novas.

Eu avalio o espetáculo assim: a que distância está o pensamento do leigo de um pensamento matemático qualquer? Precisamos pensar desse jeito para pôr as pedras no caminho do público, para que ele consiga atravessar o rio, digamos assim. Os temas mais adequados para o espetáculo de rua são aqueles que exigem pouco contexto; ou então o contexto precisa ser simples, fácil de aprender em pouco tempo. Usamos as técnicas que os animadores e os mágicos conhecem bem: usamos linguagem familiar e divertida, e fazemos o público focar no que estamos fazendo.

Como foi seu trabalho com a Amazon?

Em 2005, a Amazon (uma livraria americana) fez uma campanha publicitária; ela tinha a ideia de aplicar ideias e conceitos matemáticos ao Natal. Seus funcionários entraram em contacto com várias universidades, inclusive a Universidade de Manchester (Inglaterra), onde eu estava a acabar o meu doutorado. Para apresentar uma ideia à Amazon, essa ideia deveria ser surpreendente de alguma forma; decidi aceitar o desafio.

Criei um método para desenvolver o embrulho de papel perfeito, um embrulho que usasse o mínimo possível de papel e de cola. Mesmo assim, o padrão impresso no papel de presente deveria se juntar de modo perfeito, simétrico. (Isto é, o comprador não deveria notar a linha onde o papel foi cortado). Cheguei à conclusão de que a caixa de presente perfeita teria de ter uma base quadrada. Quando as pessoas embrulham uma caixa quadrada, elas tendem a pôr o papel de presente em paralelo com as arestas da caixa. Se não houver muita sobreposição de papel, esse método evita o desperdício, mas o padrão impresso no papel fica desalinhado.

De que modo esse projeto influenciou sua carreira?

Falei com muitas pessoas da mídia, interessadas na comunicação desse feito matemático. Isso foi muito interessante para mim: foi muito bom saber que eu conseguia falar de matemática para os meios de comunicação de massa. Esse projeto me deu experiência.

O que o passante aprende num espetáculo de rua?

Não acho que seja possível ensinar matemática apenas com o maths busking. Mas já sabemos que as brincadeiras provocam bons efeitos na aprendizagem. Tirar partido desse conhecimento é salutar. Ao mesmo tempo, a diversão dá energia para a pessoa que precisa se dedicar ao trabalho árduo de estudar. Muitos professores frequentam as nossas sessões justamente em busca de novas ideias, novos métodos, novas ferramentas. Eu gostaria que, nas escolas, naquelas festas de fim de ano, as crianças não encenassem apensas uma pela de teatro nem tocassem apensas uma música, mas que fizessem maths busking.

Já fizemos isso uma vez. Uma escola nos chamou para treinar seus alunos para um espetáculo, que ocorreria num jantar para levantar fundos. Treinamos meninos e meninas para executar o show durante o jantar. No mínimo, por causa desse projeto, ganhamos meninos e meninas capazes de comunicar bem as ideias matemáticas. É muito bom quando o aluno também assume o papel de professor.

O que você faz na organização real?

Eu administro uma rede nacional de voluntários, isto é, uma rede de voluntários de todo o Reino Unido; essa rede organiza aulas especiais para estudantes com talento para a matemática. Os voluntários organizam as aulas, entram em contacto com as escolas, organizam tudo para que os alunos estejam presentes. Eu dou orientações sobre como uma aula dessas deve ser, e dou treinamento para os oradores.

Como resultado desse trabalho todo, no fim deste mês (janeiro de 2012) vamos anunciar um museu da matemática. Ainda estamos escolhendo o melhor lugar. Também não sabemos se vamos usar a palavra museu, que passa a ideia de algo estático. Em português, temos a palavra exploratório, que seria uma boa escolha. Será um centro para que o visitante aprecie e compreenda a matemática. Esse centro não servirá apenas para passar as ideias técnicas, mas também a parte cultural da matemática: a matemática é uma ferramenta que se desenvolveu dentro do nosso cérebro ao longo da evolução, e é uma ferramenta que temos para conhecer o mundo. Essa capacidade de abstrair é necessária à sobrevivência da nossa espécie. Vamos também apresentar a história da matemática: celebrar as pessoas que levaram a matemática adiante, explicar por que elas se interessaram por matemática.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.