01/01/2012
por Mariana Delgado

Entrevista Sara Santos matemática do The Royal Institution of Great Britain
por Renato Mendes
“Um Saltimbanco na Matemática”
Sara Santos, jovem matemática portuguesa, entende de geometria não euclidiana e de sistemas dinâmicos. Vinha levando a vida típica de quem se dedica à matemática: mestrado, doutorado, aulas. Mas é uma mulher ativa: joga capoeira, pratica ioga, dança. Uma vez, participou de um concurso promovido pela Amazon, a livraria da internet: qual é o melhor jeito para embrulhar um presente? Sara mandou sua sugestão (com provas matemáticas), ganhou o concurso e deu várias entrevistas para jornalistas do mundo inteiro. Descobriu que tem talento para conversar sobre matemática com pessoas leigas, e descobriu que consegue usar a matemática para divertir o seu interlocutor. Depois conheceu um artista de rua, juntou o talento para explicações com a capoeira, e hoje Sara é reconhecida pela capacidade de fazer uma passante apressado parar, curtir um show de rua sobre matemática, e seguir sua vida com vontade de saber um pouco mais.
Você é matemática ou divulgadora de ciência?
Hoje eu trabalho com a divulgação de matemática e, em parte de meus projetos, desenvolvo técnicas para comunicar a matemática para determinados públicos. Grande parte do meu trabalho na The Royal Institution of Great Britain é comunicar matemática para uma audiência altamente técnica, ou seja, para crianças com talento em matemática. Num de meus projetos, eu comunico a matemática para pessoas que não escolheram estudar matemática – elas estão apenas passando na rua, fazendo alguma outra coisa, e se sentem atraídas pela apresentação de maths busking (em inglês, um “busker” é um artista de rua, desses que andam de bicicletas de uma roda só, cospem fogo, equilibram pratos, fazem mágicas com a gravata de uma passante).
Esse projeto me rendeu um prémio em Portugal, o Prémio Seeds of Science 2011. Fiquei muito feliz de saber que o que tenho feito fora de Portugal também interessa a profissionais portugueses de comunicação. Fiquei a pensar na possibilidade de levar o projeto para Portugal.
Como surgiu o espetáculo de rua?
Maths busking é levar matemática para a pessoa que está vivendo sua rotina de todo o dia, está passando na rua, fazendo compras, a caminho da escola ou do trabalho; que está no intervalo do almoço. Uma pessoa só vai parar para assistir um espetáculo se ela achá-lo interessante. Temos de contar que o público é passivo: ele não está necessariamente interessado em participar. Temos de cativar o público.
O projeto maths busking começou em 2010. Tínhamos dois objetivos na ocasião: atrair a atenção do público para a matemática e, ao mesmo tempo, mostrar para a comunidade científica que é possível comunicar bem a matemática. Muitas pessoas que vivem de divulgar a ciência não acham possível divulgar a matemática para um público leigo.
Eu tenho um amigo que é comediante, do tipo stand-up. Ele me deu detalhes sobre o que é espetáculo de rua, e juntos nós identificamos elementos essenciais para um espetáculo sobre matemática. Desenhamos um paralelo entre os espetáculos de rua e as técnicas existentes para comunicar ideias matemáticas. No espetáculo de rua, existem ideias fundamentais, às quais demos o nome de axiomas.
O primeiro dos nossos axiomas é que o maths busking é… busking. Quero dizer, a audiência não está comprometida, está de passagem. Temos de trazer a audiência para o nosso lado, e sem envergonhar ninguém. O segundo dos nossos axiomas é que a atração principal do espetáculo tem de ser matemática, porque não queremos desvirtuar o projeto e atrair artistas que só sabem fazer malabarismos com serras elétricas, que só sabem usar fogo: isso é batota (trapaça no jogo). O terceiro dos nossos axiomas é que o público tem de tirar alguma coisa do espetáculo. Ou a pessoa leva uma ideia matemática, ou leva uma atitude positiva em relação à matemática, ou leva alguma coisa que nós lhe tenhamos dado. Às vezes, distribuímos umas tirinhas de papel para fazer pentágonos, onde há o endereço do nosso website e todas as explicações para entender o show.
Como é entreter uma pessoa na rua com matemática?
O espetáculo pode durar entre 3 minutos e 10 minutos, mas já fizemos espetáculos de 30 minutos. Não podemos dar às pessoas um quebra-cabeça para resolver. Isso não é divertido. Para fazer um show de sucesso, temos de usar o humor.
Nós convidamos o público a participar. Usamos cartas mágicas, cordas, coletes, algemas, dinheiro. As pessoas ficam surpresas com a quantidade de objetos que usamos. Nós pedimos às pessoas que segurem uma carta para nós, ou que se deixem atar, e aí pedimos às pessoas atadas que usem a matemática para se livrar do nó sem cortar as cordas.
Nós treinamos voluntários para o show, e apresentamos temas que conhecemos bem ou que, por curiosidade, gostaríamos de conhecer melhor. No treinamento, usamos os materiais que já temos, mas é igualmente importante criar novos shows. No treinamento dos voluntários, muitas vezes surgem ideias novas.
Eu avalio o espetáculo assim: a que distância está o pensamento do leigo de um pensamento matemático qualquer? Precisamos pensar desse jeito para pôr as pedras no caminho do público, para que ele consiga atravessar o rio, digamos assim. Os temas mais adequados para o espetáculo de rua são aqueles que exigem pouco contexto; ou então o contexto precisa ser simples, fácil de aprender em pouco tempo. Usamos as técnicas que os animadores e os mágicos conhecem bem: usamos linguagem familiar e divertida, e fazemos o público focar no que estamos fazendo.
Como foi seu trabalho com a Amazon?
Em 2005, a Amazon (uma livraria americana) fez uma campanha publicitária; ela tinha a ideia de aplicar ideias e conceitos matemáticos ao Natal. Seus funcionários entraram em contacto com várias universidades, inclusive a Universidade de Manchester (Inglaterra), onde eu estava a acabar o meu doutorado. Para apresentar uma ideia à Amazon, essa ideia deveria ser surpreendente de alguma forma; decidi aceitar o desafio.
Criei um método para desenvolver o embrulho de papel perfeito, um embrulho que usasse o mínimo possível de papel e de cola. Mesmo assim, o padrão impresso no papel de presente deveria se juntar de modo perfeito, simétrico. (Isto é, o comprador não deveria notar a linha onde o papel foi cortado). Cheguei à conclusão de que a caixa de presente perfeita teria de ter uma base quadrada. Quando as pessoas embrulham uma caixa quadrada, elas tendem a pôr o papel de presente em paralelo com as arestas da caixa. Se não houver muita sobreposição de papel, esse método evita o desperdício, mas o padrão impresso no papel fica desalinhado.
De que modo esse projeto influenciou sua carreira?
Falei com muitas pessoas da mídia, interessadas na comunicação desse feito matemático. Isso foi muito interessante para mim: foi muito bom saber que eu conseguia falar de matemática para os meios de comunicação de massa. Esse projeto me deu experiência.
O que o passante aprende num espetáculo de rua?
Não acho que seja possível ensinar matemática apenas com o maths busking. Mas já sabemos que as brincadeiras provocam bons efeitos na aprendizagem. Tirar partido desse conhecimento é salutar. Ao mesmo tempo, a diversão dá energia para a pessoa que precisa se dedicar ao trabalho árduo de estudar. Muitos professores frequentam as nossas sessões justamente em busca de novas ideias, novos métodos, novas ferramentas. Eu gostaria que, nas escolas, naquelas festas de fim de ano, as crianças não encenassem apensas uma pela de teatro nem tocassem apensas uma música, mas que fizessem maths busking.
Já fizemos isso uma vez. Uma escola nos chamou para treinar seus alunos para um espetáculo, que ocorreria num jantar para levantar fundos. Treinamos meninos e meninas para executar o show durante o jantar. No mínimo, por causa desse projeto, ganhamos meninos e meninas capazes de comunicar bem as ideias matemáticas. É muito bom quando o aluno também assume o papel de professor.
O que você faz na organização real?
Eu administro uma rede nacional de voluntários, isto é, uma rede de voluntários de todo o Reino Unido; essa rede organiza aulas especiais para estudantes com talento para a matemática. Os voluntários organizam as aulas, entram em contacto com as escolas, organizam tudo para que os alunos estejam presentes. Eu dou orientações sobre como uma aula dessas deve ser, e dou treinamento para os oradores.
Como resultado desse trabalho todo, no fim deste mês (janeiro de 2012) vamos anunciar um museu da matemática. Ainda estamos escolhendo o melhor lugar. Também não sabemos se vamos usar a palavra museu, que passa a ideia de algo estático. Em português, temos a palavra exploratório, que seria uma boa escolha. Será um centro para que o visitante aprecie e compreenda a matemática. Esse centro não servirá apenas para passar as ideias técnicas, mas também a parte cultural da matemática: a matemática é uma ferramenta que se desenvolveu dentro do nosso cérebro ao longo da evolução, e é uma ferramenta que temos para conhecer o mundo. Essa capacidade de abstrair é necessária à sobrevivência da nossa espécie. Vamos também apresentar a história da matemática: celebrar as pessoas que levaram a matemática adiante, explicar por que elas se interessaram por matemática.
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